quinta-feira, 16 de junho de 2011

“Uma piada é uma espécie de porta de entrada para um outro sistema cultural”

Robert Darnton

FONTE;revista de História BN


“Uma piada é uma espécie de porta de entrada para um outro sistema cultural”

Lilia Moritz Schwarcz e Luciano Figueiredo

  • Robert Darnton não acredita na morte. Ao menos em certas circunstâncias. Na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano, no meio de um dos debates dedicados ao mercado das obras virtuais, declarou: “Tivemos a morte dos autores, dos livros e das bibliotecas. Quero dizer aqui: eu não acredito na morte!” Foi assim, como a maré alta que percorre as ruas da velha Paraty, que esse renomado historiador americano, especialista na França do século XVIII e em temas ligados ao Iluminismo, dominou as atenções da Flip, fazendo ferver o debate sobre o Google e a expansão dos livros virtuais. Este é um tema caro a Darnton. Em 2007, ele assumiu a direção da Biblioteca da Universidade de Harvard e tomou para si a missão de digitalizar e tornar acessível a produção intelectual da famosa universidade.

    Darnton nasceu em Nova York em 1939. Autor de O Grande Massacre de Gatos e outros livros de títulos estranhos (O Beijo de Lamourette, Os dentes falsos de George Washington), ele vem de uma família de jornalistas sem muito dinheiro. Com uma bolsa de estudo atrás da outra, graduou-se em Harvard, fez o doutorado em Oxford e virou professor em Princeton. “Hoje não me sinto mais à margem; faço parte de uma elite, mas me identifico com figuras intermediárias”, diz Darnton, citando outros pesos pesados que, como ele, transitaram entre esferas culturais diversas, como Rousseau e Diderot.

    O escritor recebeu a equipe da RHBN durante a Festa Literária Internacional de Paraty e falou de sua trajetória acadêmica, dos novos desafios à frente da Biblioteca de Harvard, do perigoso monopólio do Google, da visita ao Brasil e do fascínio pelo conceito iluminista de República das Letras. Para ele, a missão do historiador seria informar sobre a condição humana tal como ela foi vivida no passado. E há um lema que o orienta nesse exercício, uma citação de Erving Goffman que pontua toda esta entrevista: “O que está acontecendo aqui”?

    REVISTA DE HISTÓRIA Como foi sua formação escolar?

    ROBERT DARNTON Eu poderia dizer que vivi de bolsas de estudo durante talvez uns quinze anos. Primeiro, para estudar em um internato renomado chamado Philips Academy, em Andover. Depois, ganhei outra bolsa para estudar em Harvard, e em seguida fui para Oxford. De fato, fui daqueles estudantes patrocinados por essas instituições filantrópicas que recrutam jovens. Às vezes, isto gera certa tensão: “Será que estou sendo usado pela elite para atender aos seus interesses?” Mas nunca levei isso muito a sério. Eu vivia, sim, uma condição à margem da elite, não pertencia àquele universo, embora nunca tenha sofrido por isso, e as pessoas eram muito boas comigo.

    RH Sua família não pertencia à elite?

    RD Minha família não tinha muito dinheiro quando eu era pequeno. Não que eu pertencesse a uma classe social baixa. Meus pais eram jornalistas. Ele morreu na Segunda Grande Guerra e ela teve que se virar sozinha, não se casou novamente, criou uma agência de notícias chamada Agência Nacional de Notícia para Mulheres. O negócio deu para trás. Minha mãe perdeu tudo e a família caiu muito de padrão. Nós realmente não tínhamos nada. Eu tinha um colega de quarto na escola que me dava roupas para eu ir para casa. Eu tinha o que Pierre Bourdieu chamaria de “capital cultural”. Havia muitos livros em casa, mas nenhum dinheiro. E quando fui para essas escolas de elite, descobri que era capaz não só de acompanhar os demais, como de ir além.

    RH Essas experiências influenciaram sua produção acadêmica.

    RD Sim. Eu diria que todos aqueles anos na pobreza afetaram profundamente minha percepção de cultura e sociedade. Tenho ao mesmo tempo um grande interesse pelas ideias filosóficas do Iluminismo e um fascínio pelo mundo que chamo de Grub Street [uma rua inglesa que até o século XIX era muito frequentada por hack writers, escritores pobres que trabalham por encomenda]. Costumo citar o caso de Rousseau. Seu pai era relojoeiro, um artesão. Rousseau fugiu de casa aos oito anos e morou nas ruas. Quando ele foi para Paris, não sabia como se comportar, como se sentar numa cadeira, como tirar a comida de uma travessa... Não tinha os trejeitos do mundo aristocrático no qual vivia. Hoje não me sinto mais à margem: sou professor de Harvard, faço parte de uma elite. Mas me identifico com os chamados hack writers.

    RH Gosta deles de verdade?

    RD Sim. Acho que há correntes culturais que vêm e vão, e que existem figuras intermediárias muito importantes, como Diderot e Rousseau, gênios que fazem parte, ao mesmo tempo, da elite e do povo. A história social e cultural que tento desenvolver é não só aquela que vê a literatura como um fenômeno social e estético, mas também aquela que marca a sociedade por meio de canais particulares de comunicação, através de figuras que conseguem transitar entre a elite e as pessoas mais comuns.

    RH Como o senhor escreve tão bem?

    RD Na verdade, durante toda a minha vida me senti como se estivesse me preparando para uma carreira jornalística. Há um caso curioso. Quando eu tinha quatro anos, saiu uma matéria no The New York Times assinada por um homônimo, Robert Darnton. Era esse o meu destino... Já na quinta série, eu escrevia para um jornaleco da pequena cidade em que eu morava, em Connecticut. Só havia dois jornais. Fui ao primeiro e disse: “Quero escrever”. Eles me responderam: “Se manda daqui, garoto”. Então, fui ao segundo, e quando pedi para escrever, eles disseram: “Está bem, nós lhe daremos uma coluna”. Dá para acreditar? Era uma vez por semana, e eu tratava da vida escolar. Não era uma coluna muito boa, mas já era uma tentativa precoce de ser repórter. Depois, trabalhei numa publicação policial de New Jersey, o Newark Star Letter, e fui jornalista por um breve período no The New York Times. Como um repórter, eu respeito muito meus leitores. Acredito que eles são inteligentes, mas não acadêmicos. Ou seja: preciso contar histórias e traduzir ideias complexas em uma linguagem que faça sentido para eles.

    RH Anedotas ou piadas podem ser pontos de partidas para estudos históricos?

    RD Acredito que sim. É o que está dito em O Grande Massacre de Gatos, baseado em episódios aparentemente insignificantes da história francesa. Eu estava seguindo os passos de uma antropologia simbólica, influenciado por nomes inspiradores como Clifford Geertz, Victor Turner, Mary Douglas, e, sobretudo, Evans-Pritchard. Eu diria que, se você entende a piada, compreende também a cultura. Uma piada é uma espécie de porta de entrada para um outro sistema cultural. Para mim, essa é uma questão maravilhosa a ser explorada. Hoje, no entanto, uma nova geração de críticos argumenta que eu e todos aqueles renomados antropólogos que citei estaríamos, como dizemos no inglês, othering [de other, “outro”] determinadas culturas. Othering seria uma maneira de definir e garantir a própria identidade positiva por meio da estigmatização de um “outro’. É reificar uma cultura e talvez fazer com que ela pareça mais exótica do que é – o que também seria uma forma de afirmar a autoridade do antropólogo. Então eu estaria othering os franceses do século XVIII?

    RH Está?

    RD Acho que não. Se você entende a piada, está realmente compreendendo algo maior do que ela. Veja o caso de O Grande Massacre de Gatos. Quando sacrificavam aqueles felinos cerimoniosamente, encenando um julgamento, e em seguida reproduzindo o caminho e matando em mímicas... Claramente, eles achavam essa prática engraçadíssima. Por quê? Eu me lembro de Erving Goffman. Ele dizia que, no início de uma investigação, é preciso se perguntar: “O que está acontecendo aqui?” Em geral, este é o meu ponto de partida. Foi assim, por exemplo, nesse livro que está para ser lançado no Brasil, O demônio e a água sagrada.

    RH Poderia falar sobre ele?

    RD O subtítulo, “A arte da calúnia na França, de Luís XIV a Napoleão”, esclarece melhor a proposta do livro. Nele, cubro quase dois séculos para entender como a literatura do escândalo funcionava. Usei alguns libelos da época, assim como as ilustrações, os frontispícios, as notas de rodapé, etc. Darei um exemplo de que gosto. O primeiro panfleto que estudei reproduzia acusações ao governo francês. Era uma série de anedotas de apenas um parágrafo. Não havia narrativas, mas temas que se relacionavam por diversas técnicas e ferramentas, como as notas de rodapé. Estava escrito, por exemplo, que uma certa condessa, cujo nome começa com a letra B, enviara ordem ao chefe de polícia de Paris para que nenhum policial pusesse os pés num bordel. Em seguida, lia-se na nota de rodapé: “Metade deste artigo é verdadeiro”. É tudo o que dizia (risos). Cabia ao leitor saber qual parte era verdade.

    RH Seu livro seria então uma continuação de Edição e Sedição?

    RD Sim. Eu me dediquei bastante a esses libelos maravilhosos do século XVII, em especial aos de Pierre Marteau. Ele não é muito conhecido nem mesmo na França, mas trata-se de um tremendo escritor. Um de seus livros, La France Galante, fala de intrigas e sexo em Versalhes na época de Luís XIV. O que está acontecendo aqui? O que se passa nesses libelos? Por que são tão importantes? Por que preocupam tanto o governo? Por que existe uma série muito bem elaborada de histórias de detetive ligadas ao sequestro e assassinato de escritores? O demônio e a água sagrada é uma apresentação dessa missão policial secreta de sequestrar os escritores.

    RH Livros são perigosos?

    RD Claro! A polícia francesa montava enormes esquemas de investigação. Em 1749, o governo ordenou uma missão: encontrar o autor da música que começa com Monstre dont la noire furie (algo como “Monstro de fúria negra”). Pois bem, o que está acontecendo aqui? Por que Versalhes está tão obcecada em descobrir o autor dessa canção? Eu tento acompanhar essa história também. É material para um próximo trabalho.

    RH
    Quando escolhe estas pequenas histórias, sabe onde quer chegar?

    RD Geralmente, não. É assim que trabalho: tento ler manuscritos o tempo todo. Agora que dirijo uma biblioteca, não posso mais fazer isso, não tenho tanto tempo disponível. Mas quando vou a Paris, costumo mergulhar em arquivos. Sempre tenho um projeto em mente e acabo descobrindo coisas diferentes. E à medida que você vai aprofundando a leitura dos arquivos, encontra elementos relevantes para uma provável questão teórica. Por isso não dá para chamar isso de método. É mais uma orientação; trata-se de maximizar a exposição do material bruto, das fontes, mas tendo em mente questões teóricas.

    RH Como surgiu a oportunidade de dirigir a biblioteca de Harvard?

    RD Devo dizer que amo Harvard, onde estudei, mas acabei construindo uma história em Princeton. Em 1968, a Universidade de Princeton era um lugar mais apropriado para desenvolver o tipo de história que me interessava, ao lado de Natalie Davis, Carl Schorske, Lawrence Stone. Tínhamos um departamento incrível, e eu estava feliz lá. Mas um dia o telefone tocou, e era o diretor da Universidade de Harvard. Ele já havia me procurado em outras ocasiões, mas desta vez a proposta era diferente: “Levaria em consideração a ideia de ser o diretor da nossa biblioteca?”, disse ele. Eu aceitei na mesma hora. O que eu poderia fazer? A Biblioteca de Harvard é um lugar-chave pela influência que exerce no novo mundo da informação. Há outros lugares, claro, mas esta é, de longe, a mais extraordinária biblioteca do mundo. E Harvard em si é, simbolicamente, muito importante. Logo, se você se importa com livros, com o futuro deles, que certamente será digital, esta é minha forma de fazer a diferença. Eu poderia tentar, embora modestamente, ajudar a moldar o mundo do conhecimento no futuro. E, para mim, isso significava, acima de tudo, acesso livre para tornar as riquezas intelectuais de um lugar disponíveis para o restante do mundo.

    RH E conseguiu fazer isso?

    RD Assim que cheguei lá, tivemos um incrível debate na Faculdade de Artes e Ciências. Eu e um amigo, Stuart Shieber, rascunhamos uma moção para ser votada pela faculdade. Essa moção obrigava todos os professores de Harvard a tornarem público, num sistema de armazenagem de dados, todos os artigos acadêmicos produzidos por eles. É como se a produção acadêmica corrente sobre todos os assuntos passasse a ser de uso universal. Tudo isso é muito controverso, e houve um grande debate que passou despercebido. Alguns dizem que esta foi a primeira vez que um grupo de professores concordou unanimemente sobre algum assunto. Foi uma campanha importante visando à implementação de novos padrões no mundo da comunicação.

    RH Esse padrão será adotado por outras universidades dos Estados Unidos?

    RD Acho que sim. É claro que existem muitas iniciativas de acesso, como são chamadas pelo país afora. Mas elas são completamente voluntárias. Em Harvard, isto se tornou obrigatório, com direito a uma cláusula de rescisão. É por isso que essa iniciativa está sendo chamada de Modelo Harvard. E ela já foi adotada pelo MIT [Massachusetts Institute of Technology] e por Stanford, entre outras universidades. Outro caso a ser combatido é o de algumas revistas acadêmicas.

    RH Como assim?

    RD Nos EUA, temos algumas revistas especializadas, por exemplo, em biologia molecular, que chegam a nos custar US$ 30 mil por ano. A biblioteca paga milhões de dólares por essas publicações. E isso é uma tremenda contradição, já que nós participamos do comitê editorial, avaliamos os artigos, e depois de fazer todo esse trabalho de graça, ainda temos que comprar de volta os resultados do nosso próprio esforço por valores ultrajantes. É uma loucura! Por isso estamos tentando romper com esse sistema. Soa um pouco violento, mas queremos transformar a comunicação no meio acadêmico.

    RH Como vê o papel do Google nesse processo?

    RD Nós temos que confrontar o Google. Ele não é exatamente um vilão. O Google está fazendo um bom trabalho. Muitas coisas se tornaram mais acessíveis por causa dele. O problema é que o Google faz isso tão bem que acabou virando um perigo. O que se está criando é um novo tipo de monopólio, talvez o maior jamais visto na história dos EUA. O Google é incrível, mas não passa de uma empresa comercial cuja principal responsabilidade é com seus acionistas. Há, então, uma contradição fundamental. Eu adoraria poder chegar a um acordo com o Google. Mas não creio que isso seja possível. Posso ser encarado como um Dom Quixote ou uma espécie de sonhador utópico, mas, obviamente, meu desejo é por um campo cultural aberto a todos, igualitário, sem fronteiras, universal. São os princípios do Iluminismo. Esta seria a República das Letras. É nisso que pessoas como Voltaire, Diderot, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin acreditavam. E foi pensando nisso que eu aceitei o trabalho em Harvard.

    RH É possível fazer a diferença?

    RD Sim. Descobri isso escrevendo, por exemplo, sobre o Google para o New York Review of Books. A reação a esses artigos foi muito maior do que a qualquer outra coisa que eu havia escrito. As pessoas estão realmente interessadas e preocupadas, mas também confusas. Essa questão do Google é complicada. É necessário compreender todas as complexidades legais envolvidas no assunto para ser capaz de, numa linguagem simples, se comunicar com o público leitor instruído. O meu maior desejo é construir uma terceira via, uma Biblioteca Nacional Digital nos Estados Unidos, aberta e livre para todos no mundo, logo, também internacional. Isso seria fabuloso. Não tenho mais tempo para estudar manuscritos do século XVIII, mas, se conseguirmos concretizar esse meu desejo, terá valido a pena.

    RH Mas, enquanto isso, algumas coisas estão se perdendo, não é?

    RD Infelizmente. Uma biblioteca nacional (a do Congresso, no caso específico dos EUA) é considerada o tesouro de um país. É onde está localizado o patrimônio cultural da nação. Mas essa ideia é nova. Muita coisa desapareceu. Metade dos filmes produzidos antes de 1945 desapareceu. Isso representa três quartos dos filmes mudos. Nós os perdemos. Será que vamos perder textos digitais contemporâneos? É bem provável. Na verdade, isso já acontece diariamente: perdemos e-mails, materiais em páginas da Internet, etc. Veja: a maior parte da comunicação diplomática de 1970 foi feita por áudio. Creio que 90% dessas conversas desaparecerão. O que vão fazer os futuros historiadores da diplomacia? Estamos num momento crucial e precisamos ter o controle de nossos recursos culturais.

    RH Esta sua missão parece embasada em alguns princípios iluministas.

    RD Claro! Considero inspirador o conceito da República das Letras, um dos aspectos do Iluminismo. É um campo cultural aberto a todos, igualitário, sem fronteiras. Este é um ideal que foi cultivado nos séculos XVI, XVII e, sobretudo, no XVIII, e que ainda permanece válido. É até possível argumentar que ele é mais relevante hoje do que no passado, pois, naquela época, só uma elite muito pequena podia participar da República das Letras. A maioria não sabia ler. No caso da França, havia dezenas e dezenas de academias, mas para um público muito restrito. Hoje, graças à Internet, todos podem fazer parte da conversa. E também temos experiências como a Wikipédia. Adoro a Wikipédia. Sei que não dá para confiar nela, mas estão tentando corrigir certos erros. Sabe, considero a sabedoria das multidões.

    RH Os EUA ocupam um papel de destaque na divulgação científica e cultural?

    RD É verdade que muita coisa parece estar acontecendo nos EUA. O inglês talvez seja mesmo tão importante quanto foi o francês no século XVIII. E acho que muitos dos problemas, das iniciativas, dos conflitos, estão acontecendo nos EUA, para o bem ou para o mal. Em alguns lugares, especialmente na França, esse processo tem sido associado ao imperialismo cultural. O Jean-Noël Jeanneney escreveu um livro chamado Quando o Google desafia a Europa, em que ele compara o Google com uma cadeia fast-food, como o McDonald’s. Não acho que seja por aí. Existe uma força que vem dos EUA, quase sempre ligada à tecnologia, que não deveria ser simplesmente tachada de imperialismo cultural. E tenho esperança de que novas forças possam surgir de outros lugares.

    RH Como o Brasil?

    RD Sim. O Brasil está se tornando uma grande potência. Essa esperança pode parecer ingênua, mas existe muita originalidade por aqui. Sempre que venho ao Brasil, embora não saiba português, sinto uma energia e uma criatividade incríveis. Aqui em Paraty, fiquei emocionado ao sair para a praça e me deparar com livros pendurados em árvores como frutas, e muitas crianças. Fiquei tocado por essa noção de que os livros são suculentos e devem ser desfrutados e ingeridos. Achei maravilhoso que crianças pequenas estivessem fazendo aquilo. Elas estão participando aqui, em Paraty, da República das Letras.



    Saiba Mais - Verbetes

    Pierre Bourdieu (1930-2002)

    Filósofo francês com grande influência nas Ciências Humanas no século XX. Entre os principais conceitos desenvolvidos pelo autor está o de “capital cultural”, apresentado no livro Os herdeiros (1964), que escreveu com Jean-Claude Passeron.

    Denis Diderot (1713-1784)

    Escritor e filósofo iluminista francês, editou, com Jean le Rond D’Alembert, uma das obras centrais do Século das Luzes, a Enciclopédia (1750-1772). A obra procurava organizar todo o conhecimento humano a partir de uma base racionalista.

    Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

    Escritor e filósofo iluminista nascido em Genebra, defendeu a ideia de que a liberdade é parte da natureza humana. Autor, entre outras obras, de O Contrato Social (1762), que tem inspirado diversos movimentos políticos e sociais desde o século XVIII.

    Clifford Geertz (1926-2006)

    Antropólogo norte-americano cujas teorias influenciaram outras ciências sociais, como a Linguística, a História, a crítica literária e até a poesia. Criador da Antropologia Interpretativa, um dos seus livros mais importantes é A interpretação das culturas (1973).

    Voltaire (1694-1778)

    Pseudônimo de François-Marie Arouet, principal nome do Iluminismo francês. Escritor e filósofo profundamente crítico, atacou os poderes tradicionais, principalmente a Igreja, que proscreveu toda a sua obra. Entre os seus principais livros está Cândido ou o otimismo (1759).

    Thomas Jefferson (1743-1826)

    Político iluminista e republicano norte-americano, foi signatário da Declaração de Independência de 1776. Governou a Virgínia, foi secretário de Estado, vice-presidente e presidente do seu país.

    Benjamin Franklin (1706-1790)

    Político, jornalista e cientista norte-americano, foi um dos líderes da Revolução Americana, tendo assinado a Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 1776.

    Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973)

    Antropólogo inglês, transformou o modelo funcionalista de análise numa perspectiva mais aberta à análise da estrutura social. Entre outros livros, é autor de Os Nuers, Bruxarias e rituais entre os Azande, Antropologia Social e outros ensaios (1962).

    Saiba Mais - Bibliografia


    A questão dos livros. Passado, presente e futuro. Companhia das Letras, 2010.
    A Revolução Impressa. A imprensa na França, 1775-1800. (organizador, com Daniel Roche). Edusp, 1996.
    Boemia literária e Revolução. O submundo das letras no Antigo Regime. Companhia das Letras, 1987.
    Democracia (organização, com Olivier Duhamel). Record, 2001.
    Edição e sedição. O universo da literatura clandestina no século XVIII. Companhia das Letras, 1992.
    O Beijo de Lamourette. Mídia, cultura e revolução. Companhia das Letras, 1990.
    O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa. 3ª edição, Graal Editora, 2010.
    O Iluminismo como negócio. A história da publicação da Enciclopédia. Companhia das Letras, 1996.
    Os dentes falsos de George Washington. Um guia não convencional para o século XVIII. Companhia das Letras, 2005.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Slavoj Zizek e a novidade do comunismo

Enviado por Miguel Conde -
28.5.2011
|
9h30m

Slavoj Zizek e a novidade do comunismo

FONTE : PROSA E VERSO=O GLOBO


Sentado num hotel em Copacabana, um dia após fazer uma palestra sobre os impasses da democracia liberal para um Odeon lotado (a convite da PUC-Rio, Uerj, Boitempo e Flacso), o filósofo esloveno Slavoj Zizek parece tomado por um excedente de energia que o deixa num estado próximo à convulsão: durante uma hora de entrevista sobre seus livros “Em defesa das causas perdidas” e “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (Boitempo, tradução de Maria Beatriz de Medina), seus braços se lançam em todas direções possíveis pontuando as respostas aceleradas, cheias de parênteses, diálogos encenados e exclamações. Ao mesmo tempo enfática e digressiva, a fala é fiel aos textos que fizeram de Zizek uma referência para a esquerda mundial, nos quais uma aproximação original dos pensamentos de Marx e Lacan serve de ferramenta para um ímpeto aparentemente inesgotável de interpretação crítica da cultura moderna e contemporânea, dos filmes de Hollywood aos pressupostos da democracia representativa até o pensamento de Deleuze ou Antonio Negri. Nessa entrevista ao GLOBO, Zizek explica (entre outras coisas) o que significa hoje ser comunista, e por que é preciso recuperar a ideia de revolução.

Seu livro “Em defesa das causas perdidas” começa pela constatação de que a ideia de revolução está hoje desacreditada no debate político. Esse descrédito, o senhor argumenta, não se explica simplesmente pelo fim da União Soviética ou pela queda do Muro de Berlim, como muitas vezes se diz. Ele estaria ligado a diversas críticas feitas no século XX às noções de verdade e totalidade. Quais são os principais argumentos dessas críticas, e como o senhor pretende contestá-los?

SLAVOJ ZIZEK: Há uma certa moda na filosofia pós-moderna de se tomar a verdade como algo opressivo, que deve ser subvertido. Questiona-se: “quem tem o direito de dizer que algo é verdade?” Em vez da verdade, existiriam apenas opiniões. Até as ciências naturais são tomadas como um fenômeno discursivo, que não teria nenhuma diferença de princípio em relação a superstições e formas de conhecimento baseadas na tradição. Discordo disso. Penso que existe a verdade, que existe a verdade universal, e que ela pode mesmo ser vista politicamente. Por exemplo, o que aconteceu recentemente no Egito foi a universalidade em sua forma mais pura. Não precisamos de nenhuma teoria multiculturalista para entender o que se passava nas ruas do Egito. Quando você tem uma rebelião pela liberdade, pode se identificar com ela de maneira imediata. Quanto à totalidade, esse é um grande mal entendido. A noção hegeliana de totalidade não significa que todos fenômenos particulares sejam no fundo parte de um mesmo todo orgânico. Não! Se você lê Hegel, vê que totalidade é quase o oposto disso. A totalidade é uma categoria crítica, que implica perceber as maneiras pelas quais um certo fenômeno dá errado como sendo parte da essência desse fenômeno. Detesto os marxistas que dizem: “Stalin traiu o verdadeiro espírito do marxismo”. Não, não se pode permitir que isso seja dito. Se as coisas deram tão terrivelmente errado com Stalin, isso significa que havia uma falha estrutural no próprio edifício de Marx. Não acredito nessa baboseira do tipo “a ideia era boa mas infelizmente foi mal realizada”. Aqui eu sou freudiano. O resultado da ideia é como um sintoma, que aponta para algo errado na ideia. Não acho que os liberais de hoje consigam admitir isso. Por exemplo, tive um debate na França com Guy Sorman, um defensor radical do capitalismo e ele dizia: “capitalismo significa justiça e democracia”. Então eu perguntei, “mas e a China hoje?”, e ele respondeu “Ah, mas isso não é capitalismo”. Isso é um pouco fácil demais. Quando você tem um capitalismo que não se encaixa no seu ideal, você diz “não, não, não é disso que se trata”. É como a piada contada por Lacan, “meu noivo nunca está atrasado pois no momento em que se atrasa ele deixa de ser meu noivo”. Claro que você pode dizer, “o comunismo é sempre democrático pois no momento em que não é democrático ele deixa de ser comunismo”. Ok, mas isso é fácil demais.

O senhor no entanto sugere em seu livro que as revoluções são violentas apenas quando não são de fato revolucionárias. Ou seja: quanto mais revolucionária for uma revolução, menos violenta ela será num sentido estrito. Poderia falar sobre isso?

ZIZEK: Escrevi num outro livro algo que me deu muitos problemas: eu disse, “o problema de Hitler é que ele não foi violento o bastante”. E as pessoas ficaram “aaai, você queria que ele tivesse matado todos os judeus?!” Não! Ele não foi violento o bastante nesse sentido autêntico, revolucionário, em que a violência significa transformação das relações sociais, e não tortura ou assassinato. Hitler matou milhões de judeus em nome da manutenção do sistema. O que estou dizendo é que não quero dar a Hitler sequer esse crédito, na linha “ele foi um criminoso, mas era um líder corajoso”. Não, ele não era. Nesse sentido, Mahatma Gandhi foi mais violento do que Hitler. Gandhi é sem dúvida um modelo de paz, mas nesse sentido básico ele foi violento, organizou protestos de massa com o objetivo de impedir o funcionamento do Estado colonial inglês na Índia. Isso é algo que Hitler nunca ousou fazer.

Os críticos da totalidade apontam um outro tipo de violência, que é a violência das ideias. Toda revolução tem pelo menos dois momentos. Um de suspensão total daquilo que é dado, o que o senhor chama de “evento”, citando o termo usado por Alain Badiou. E um segundo momento de estabelecimento de uma nova ordem. É este segundo momento que é percebido como inerentemente violento, na medida em que a nova ordem é estabelecida a partir de abstrações totalizantes que são impostas à sociedade.

ZIZEK: Sim, essa é a crítica padrão, iniciada por Edmund Burke e Joseph de Maistre. Mas, escute. A violência emerge, admito, como uma limitação desses modelos abstratos. Mas acho que essa análise é muito simplista. Há revoluções, afinal, que são bem sucedidas. Veja o milagre da democracia. Sou um crítico das democracias atuais, mas a ideia de democracia é um exemplo maravilhoso de como algo que era percebido na sociedade pré-moderna como o maior momento de perigo e instabilidade pode se tornar parte da estabilidade do novo sistema. Na época das monarquias, ou mesmo nos regimes totalitários, o momento de maior perigo se dá quando o líder morre e o trono fica vazio. Na União Soviética, quando Stalin morreu, mantiveram a morte em segredo por três dias. A ideia da democracia, no entanto, é muito engenhosa. Ela diz: “e se, em vez de tratar o fato de que o trono está vazio como um problema, nós o considerarmos uma solução? O trono está originariamente vazio, e apenas algumas pessoas eleitas democraticamente podem ocupá-lo por um certo período de tempo, de forma limitada. Ninguém tem um direito natural a ocupar o espaço do poder”. Esse é para mim um ótimo exemplo de algo que parecia violento e se torna o próprio fundamento da estabilidade. Então concordo que há um perigo das ideias, mas acho que o dia seguinte é a parte mais importante das revoluções. Não me sinto fascinado por esses momentos de grande mobilização onde todos estão nas ruas, juntos, pedindo mudança. Isso sempre me lembra da França, onde todo conservador hoje, a começa por Sarzoky, diz: “claro, em 1968 eu estive nas barricadas”. O que me interessa é o dia seguinte. A violência do dia seguinte é sinal de uma falha, mas não há sempre necessariamente violência. Se aqueles no poder resistem, é claro que deve haver alguma violência, mas apenas como forma de defesa.

O senhor argumenta, porém, que no interior do horizonte da democracia só é possível pensar em mudanças parciais, reformas...

ZIZEK: Não, aqui serei bem específico. Falo do horizonte da democracia atual. O problema é como revitalizar a democracia. Mesmo Badiou, que às vezes disse coisas malucas, como “o nome do inimigo hoje é democracia”, já especificou essa declaração, explicando que o que ele critica é o modelo atual de democracia representativa. Vou dar um exemplo. Estive na Inglaterra anos atrás, nas últimas eleições vencidas pelos Trabalhistas, quando Blair ainda era o líder do partido. Duas semanas antes da votação, houve na BBC uma grande eleição pública para se escolher a pessoa mais odiada da Inglaterra. Sabe quem ganhou? Tony Blair. E duas semanas depois, Tony Blair foi eleito. O que isso mostra? Mesmo críticos conservadores admitem isso: há uma disfunção da democracia, uma certa quantidade de energia de protesto, frustração, insatisfação, que não pode ser capturada por esses modelos tradicionais puramente partidários e representativos. E então há reações distintas a isso. Desde os “movimentos de uma questão só”, como um movimento pela redução de certos impostos, até essas revoltas aparentemente irracionais, como a queima de carros nos subúrbios de Paris. Isso deveria preocupar qualquer democrata sincero hoje. Como tornar o sistema democrático mais eficiente, de modo que não se tenha explosões de descontentamento que dão expressão a uma energia não capturada pela representação política?

Mas a criação de novos canais de expressão ou atuação política pode ser defendida dentro de uma agenda democrática puramente reformista. Por que seria necessário então recuperar, como o senhor propõe, a noção de revolução?

ZIZEK: Mas espere um minuto, por revolução não quero dizer estado de emergência, polícia revolucionária etc. Por revolução quero dizer apenas, num sentido puramente formal, mudança radical. Talvez nem mesmo uma mudança radical veloz. A revolução seria, simplesmente, por exemplo, que as pessoas no Japão ameaçadas pela radiação nuclear se unissem e exigissem algum tipo de regulação internacional eficiente... Revolução para mim é mudança nas relações sociais de poder.

Um lento processo de transformação não seria o oposto do “evento”, do qual fala Badiou?

ZIZEK: Badiou é muito preciso: para ele, um evento é algo que só pode ser reconhecido retroativamente. E aqui entra o que ele chama de fidelidade ao evento. Não é o grande evento, mas esse trabalho paciente de busca por novas formas, a reinscrição do evento na forma do ser, da vida cotidiana. Para mim, foda-se a revolução, o que me interessa é aquilo que permanece. Não ligo para o que aconteceu na Praça Tahrir. O que me importa é o que vai permanecer daquilo daqui a cinco anos. Nesse sentido, o evento é apenas um ponto de início mítico que abre um certo horizonte de atividade política, e esse é o verdadeiro trabalho, lento e duro. Badiou faz uma referência maravilhosa na qual ele lê esse processo revolucionário segundo as qualidades cristãs definidas por São Paulo: fé, esperança e amor, das quais o amor é a mais importante. Badiou diz: fé é a fé no evento, no sentido de que algo novo é possível; esperança é a esperança de que chegaremos ao objetivo; e amor é para Badiou, como disse São Paulo, o trabalho do amor. O que significa trabalho paciente. É disso que precisamos hoje. Deixe-me dar um exemplo: Obama. Gostei de Obama no começo, e mesmo agora ainda gosto dele em alguma medida, mas sabe por quê? John McCain falava uma língua que para mim era revolucionária de modo apenas superficial. Ele dizia “temos inimigos, como a burocracia, devemos combatê-los e tudo vai dar certo”. Obama, por sua vez, dizia: “nós temos problemas sérios e o que precisamos é de trabalho paciente”. Essa reabilitação do trabalho cinzento diário, talvez a esquerda precise de um pouco disso, não?


O comunismo vai vencer, como o senhor disse ao jornal inglês “The Guardian”?

ZIZEK: Ah, isso é uma provocação. Quis dizer: o comunismo vai vencer ou então estaremos todos na merda. Você tem que dizer algo assim de vez em quando para fazer as pessoas pensarem. Ainda sou um comunista, mas não um continuísta. O século XX acabou. O resultado geral do comunismo foi um fiasco. A social-democracia foi boa enquanto funcionou, mas está hoje em crise. E a lição do sucesso econômico da China e de Cingapura é que o casamento aparentemente eterno entre capitalismo e democracia está se desfazendo. Temos aqui uma forma de capitalismo ainda mais dinâmica do que o capitalismo ocidental, e que funciona perfeitamente em condições autoritárias. Isso deveria nos preocupar. A razão por que me considero ainda um comunista é que vejo uma série de problemas para os quais não há solução possível dentro do modelo do capitalismo liberal global. Entre eles, a questão ambiental, a biogenética, a propriedade intelectual. Para enfrentá-los vamos precisar de um esforço coordenado de larga escala, algo de que nem o mercado nem o Estado tradicional são capazes. Quando as pessoas me dizem “você é um utópico”, eu digo: “a única utopia de fato é acreditar que as coisas podem seguir indefinidamente seu curso atual”. É claro por exemplo que se a China continuar se desenvolvendo na escala atual haverá uma demanda materialmente impossível de se atender. Para mim, comunismo é o nome de um problema. Todos esses problemas são problemas de algo comum (“problems of commons”), de algo que deveria ser compartilhado por todos nós. É uma alegação muito modesta.

Derrida, por um outro Iluminismo

FONTE : PROSA E VERSO=O GLOBO
Enviado por O Globo -
11.6.2011
|
8h50m

Derrida, por um outro Iluminismo


Pesquisadores brasileiros e estrangeiros se reúnem de segunda a sexta-feira no Rio para cinco dias dedicados à obra de Jacques Derrida. O I Colóquio Internacional Desconstrução, Linguagem e Alteridade: Heranças de Derrida, organizado por Carla Rodrigues e Rafael Haddock-Lobo e que será realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, no Largo de São Francisco, começa às 16h de segunda-feira com a exibição do filme “D’Ailleurs Derrida”, de Safaa Fathy, seguido pela conferência “Não há desconstrução sem democracia — não há democracia sem desconstrução”, da filósofa portuguesa Fernanda Bernardo, da Universidade de Coimbra (leia entrevista abaixo). De terça em diante, o evento terá comunicações de pós-graduandos pela manhã e debates entre pesquisadores a partir das 14h. A mesa de encerramento, às 18h de sexta-feira, reunirá a professora da USP Olgária Matos e Mónica Cragnolini, da Universidade de Buenos Aires.

Por Carla Rodrigues e Rafael Haddock-Lobo*

"Age como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade em lei universal da Natureza”. Desde que Kant formulou seu imperativo categórico, ainda no século XVIII, para fundamentar sua filosofia moral, somos, direta ou indiretamente, ordenados por uma tradição ética e política orientada pela autonomia do sujeito racional de Kant, para quem “mesmo o mais vulgar dos homens” tem acesso à lei da razão e a capacidade de, a partir de um eu consciente e racional, chegar a uma proposição universal. Desde então o debate sobre ética tem Kant como referência, seja para contestá-lo, como fez Nietzsche, para aprimorá-lo, como quis Jürgen Habermas, para alargá-lo, como pretendeu Hannah Arendt no seu “Lições da filosofia política de Kant”, ou para radicalizá-lo, como fez Jacques Derrida.

Nessa linhagem de herdeiros do Pensamento Crítico destaca-se Habermas, cuja obra nasce na segunda metade do século XX declaradamente não apenas inspirada em Kant, como também em contraposição a Nietzsche. Pensador da ética do discurso e da ação comunicativa, Habermas pretende ampliar as proposições kantianas, que partiam de um monólogo do sujeito autônomo com sua própria razão, para pensar num diálogo no qual os participantes, desde que comprometidos com a ética do discurso, podem alcançar posições universalizáveis e de consenso aceitáveis a todos os participantes.

No livro mais importante que dedicou a Nietzsche, Gilles Deleuze defende a hipótese de que “A genealogia da moral” foi escrita para enfrentar o “chinês de Königsberg” — para usar a expressão sarcástica com a qual Nietzsche se referia a Kant — e se contrapor à “Crítica da razão pura”. Entre os herdeiros de Nietzsche, inclusive no que diz respeito ao enfrentamento das proposições kantianas sobre liberdade, autonomia e universalidade da razão, está o fi$ósofo franco-argelino Jacques Derrida. O martelo nietzscheano deixa à desconstrução alguns legados: o reconhecimento de que o sentido se dá sempre por um ato de força; a ampliação das aspas com as quais Nietzsche suspende a verdade, aspas que em Derrida suspendem todos os conceitos filosóficos; e a interrogação sobre as exigências morais do cristianismo e do kantismo, que em Nietzsche são sinônimos.

Parece tentador, embora seja uma solução simplista, tentar $Habermas e Derrida, sendo o primeiro um continuador do ideal iluminista kantiano e o segundo um anti-iluminista e, portanto, contrário a todas as formulações de Kant. Enquanto em Habermas há um grande esforço de encontrar procedimentos seguros para que se alcance o melhor arranjo possível, em Derrida esse melhor arranjo possível é um horizonte, uma perspectiva nunca alcançável, ou o que ele chama de “porvir”. Nos dois está em debate a relação com o outro, a justiça, a de$e a ética. Em Derrida, a ética será sempre pensada em sua relação com a alteridade, não sendo nem normativa ou deontológica, como queria Kant, nem processual, como defende Habermas. A radicalização da leitura kantiana proposta por Derrida, em contraste com a leitura proposta por Habermas, consistiria num esforço para se pensar o outro como outro, ter a alteridade como limite e desejo da própria ética, afastando-se de qualquer tentativa de inclusão, que poderia ser pensada apenas $a própria perda da alteridade, quando o outro passa a ser incorporado pela ordem do mesmo.

Quando esteve no Brasil pela última vez, em 2004, pouco mais de um mês antes de sua morte, Derrida pareceu deixar esta diferença bem marcada, ao declarar que, apesar de ter assinado um texto ao lado de Habermas, ou seja, de estar em uma ou outra posição política ao lado de Habermas, não deveríamos esquecer que ele era seu “inimigo”. O termo “inimigo” pode parecer forte demais, mas se lembrarmos que neste momento Derrida lia Carl Schmitt, importantíssimo jurista filósofo político alemão, podemos entender que as heranças de Nietzsche e Schmitt não servem a Derrida para descartar Kant, mas para apontar as insuficiências da universalidade e das condicionalidades kantianas, e assim combater certa leitura kantiana predominante no panorama jurídico-político de nossos tempos, sobretudo pelas leituras neoliberais de John Rawls e Habermas.

Se Habermas é o inimigo, podemos supor então que Kant é o campo de batalha, o território que se luta para conquistar em nome justamente de outras leituras possíveis de Kant, um alargamento da própria mensagem kantiana. Não mais uma hospitalidade condicionada, por exemplo, como nos exigem as políti$internacionais, mas uma hospitalidade incondicional (inspirada na noção levinasiana de acolhimento); não mais um sujeito autônomo, que tem em sua razão a única condição de liberdade, mas sim um sujeito heterocausado, atravessado por tantas alteridades, mas ainda (o que é importante sublinhar) responsável por suas escolhas. Um sujeito que não deve agir meramente segundo o dever, segundo a regra, pois isso sim seria irresponsável, fora da ordem da decisão, mas um sujeito responsável justo por decidir sobre a regra. E uma justiça que não se fundamente apenas na regra, na rigidez da regra, mas que seja ela mesma a regulação da regra, e que traga ao direito a urgência da invenção do legislador frente à singularidade daquele que está diante da lei.

Isto seria, para Derrida, à luz de todos esses espectros, seu “outro iluminismo”, ou, como ele mesmo propõe, uma luta por “mais luzes”.

CARLA RODRIGUES é professora do Departamento de Comunicação da PUC-Rio e RAFAEL HADDOCK LOBO é professor do Departamento de Filosofia da UFRJ . São coordenadores do KHORA — Laboratório de Filosofias da Alteridade e ambos defenderam seu doutorado em Filosofia na PUC-Rio, sob orientação de Paulo Cesar Duque-Estrada, precursor dos estudos filosóficos de Derrida no Brasil

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Figura esvaziada de Hitler. FONTE:

http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/figura-esvaziada-de-hitler

Figura esvaziada de Hitler

Mostra na Alemanha levanta a questão se regimes de exceção representam anseios da sociedade

Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster

  • Hitler e J. Goebbelss, ministro do esclarecimento do povo e da propaganda em Obersalzberg 1943/ Bundesarchiv-Berlin

    Hitler e J. Goebbelss, ministro do esclarecimento do povo e da propaganda em Obersalzberg 1943/ Bundesarchiv-Berlin

    A exposição "Hitler und die Deutschen: volksgemeinschaft und verbrechen" (Hitler e os alemães: a comunidade do povo e os criminosos), abrigada na chamada Zeughaus, a antiga Casa de Armas do império alemão, no centro histórico de Berlim, teve como principal propósito uma mudança de foco na interpretação sobre o Terceiro Reich. Seguindo a tendência da historiografia contemporânea, que considera como insuficiente tratar o nazismo como obra solitária de Hitler, os organizadores da mostra, que ocorreu do fim de 2010 ao início de 2011, questionaram qual o significado da escolha do Führer pelo povo alemão e por que continuaram a apoiá-lo até 1945. A centralidade do ditador alemão foi deslocada em prol de uma análise mais profunda sobre a “comunidade do povo alemão”, conceito tão difundido durante o nazismo.

    A constante preocupação com a identificação das especificidades e diferenças nacionais para explicar os regimes que participaram da Segunda Guerra Mundial nos aproximam do uso da história comparada. Um exemplo disso está posto na antiga tese que explicava o nazismo pelas “peculiaridades alemãs”,sonderweg, o chamado “caminho especial” da história e desenvolvimento alemão, que se preocupou mais com o período imperial do que propriamente com o Terceiro Reich. De acordo com esta interpretação, o nazismo foi um fenômeno único derivado do legado peculiar do Estado autoritário prussiano e do desenvolvimento ideológico alemão, mas sua singularidade se deve, sobretudo, ao personagem Hitler, sendo impossível ignorá-lo, subestimá-lo ou substituí-lo. Esta preocupação, exposta por parte da historiografia sobre a ditadura alemã durante a Guerra Fria, limitou as explicações sobre o nazismo ao Estado e as Instituições, tornando embaçada a visibilidade sobre a efetiva participação do povo alemão durante o regime. Mesmo quando se falou na chamada Historikerstreit (disputa dos historiadores) gerando um grande e importante debate acerca do lugar que ocupa o Terceiro Reich na história alemã (1983-1986), a centralidade do debate estava voltado para a Hitler. O que a exposição “Hitler e os alemães” traz de mais importante não é uma análise dos processos de fascistização da sociedade mediante as ações do Estado Nacional-Socialista, mas, sim a proposição de um processo de fascistização comandado e assumido pela própria sociedade.

    Entendendo que uma compreensão mais profunda sobre o funcionamento da ditadura nazista levaria a uma responsabilização da população alemã sobre o sistema e suas atrocidades, parte da historiografia alemã, durante a Guerra Fria, referendou o uso do conceito de totalitarismo. Mesmo sendo um conceito pouco utilizado na Alemanha, o totalitarismo ficou marcado como conceito fundamental na explicação do nazismo e também da União Soviética sob o comando de Stálin. Durante o período da Guerra Fria, uma revisão do nazismo representava não apenas uma querela entre historiadores, mas trazia para o debate uma questão de caráter moral. Revisar o passado, onde a complexidade deste sistema transcenderia as noções tradicionais de entendimento do funcionamento do Estado e da sociedade, seria facilmente considerado como uma banalização da natureza cruel e desumana do regime nazi.

    Joseph Goebbels fala num grande comício em Berlim sobre o boicote anti-judeu / Bundesarchiv - Berlin

    Joseph Goebbels fala num grande comício em Berlim sobre o boicote anti-judeu / Bundesarchiv - Berlin

    Se entendermos a memória com um lugar de embate, de luta pela legitimação de uma interpretação que se institui como hegemônica, a história do Terceiro Reich apresenta duas visões no pós-guerra bastante significativas: uma memória da República Federal e outra da República Democrática. Para a República Federal, compreender ou aceitar o recém-passado alemão estava ligado a formação de uma consciência política do novo país e a partir daí de superação deste passado. A vertente interpretativa da República Democrática apoiou-se largamente na Internacional Comunista que entendia o nazismo como o mais chauvinista e imperialista elemento do capital financeiro. Na República Federal a marca central das análises defendia a tese de que a sociedade alemã tinha sido vitima de Hitler e seu sistema, enquanto que na República Democrática a questão girava em torno de uma memória de resistência, onde a população durante a guerra teve um papel fundamental na luta contra o nazismo e na libertação da Alemanha do Nacional-Socialismo.

    Segundo o professor Ian Kershaw, uma interpretação do nazismo deveria abarcar a fusão de três dimensões explicativas: uma de caráter histórico-filosófica, onde a questão fundamental seria a natureza do nazismo; uma política-ideológica, onde o regime, suas instituições e ideologia racial estariam no cerne do debate; e, por fim, uma dimensão moral que estaria ligada ao tratamento dado ao tema no pós-guerra e, especificamente, o que envolve a repressão e o genocídio durante a vigência do regime. Compreender o nazismo através de teorias explicativas ainda esbarra no problema enfrentado quando nos deparamos diretamente com os fatos, que, em certa medida, parecem tornar nossas explicações mais frágeis. Mesmo que o verbo compreender tenha um significado ambivalente, quando se trata de ditaduras, podemos rechaçar e seguir compreendendo o fenômeno que não deve em nenhuma hipótese ser entendido como um lapso momentâneo da razão.

    Trailer de "A fita branca", longa-metragem de Michael Haneke

    Na exposição “Hitler e os alemães” existe uma gradação muito clara de “fascinação” (Faszination) e de “Cooperação” (mitmachen) até a aprovação (“billigen”) dos próprios crimes do nazismo, bem como de oposição e resistência (fatos diferenciados) e que implica em plena consciência dos contemporâneos de Hitler sobre o fenômeno que vivenciavam, bem como sua natureza violenta e a compreensão do alcance criminoso do nazismo. O pretenso poder de Hitler foi, desta forma, preencher as expectativas e esperanças pré-existentes do povo alemão, não sendo ele mesmo o “autor” ou “produtor” de tais expectativas. A própria aceitação, com entusiasmo, frieza ou simplesmente oportunismo, do conceito de ‘comunidade do povo’ por parte da sociedade alemã implicava na cooperação com o nazismo. Esta noção, conforme construído sob o nazismo, teria em seu núcleo uma promessa real de violência.

    A vigência das noções decorrentes da “comunidade do povo” – tais como a pureza do sangue ariano, a exclusão de deficientes e de “diferentes” de todo tipo, a substituição dos conflitos de classe pela cooperação entre os membros da raça superior – plena de violência normativa impregnava a sociedade alemã de forma brutal. Conforme os organizadores da exposição, tal violência não era decorrente de ordens e decisões de apenas um homem – vindas “de cima”. A violência era produzida – no processo de exclusão social produzido pela aceitação voluntária das nações a “comunidade do povo” - através de um processo oriundo, ou mesmo antecipado, das próprias bases da sociedade alemã. Esta é uma discussão dura e amarga e que envolve o povo alemão.

    A análise direta e responsável do grupo que organizou a exposição implica numa ampla capacidade comparativa com todas as demais ditaduras. Eis aí um ponto de largo interesse com a América Latina. A questão central estaria, neste caso, em se perguntar se o processo de consumação da violência nas ditaduras é, de alguma forma, diferente ou comparável. Em verdade, se tivermos em mente as experiências históricas das ditaduras latino-americanas – dos anos 30/40 ou dos anos 60/80 do século XX – poderíamos nos perguntar sobre a adesão das sociedades latino-americanas ao processo de violência quotidiana desencadeado pela possibilidade de excluir e punir indivíduos considerados diferentes. Em graus diferentes é um debate recorrente em todas as ditaduras.

    Francisco Carlos Teixeira da Silva é professor titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor visitante da Technischen Universität Berlin.

    Karl Schurster é doutorando em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro com estágio de pesquisa na Freie Universität Berlin.

    Saiba Mais
    Livros:

    KERSHAW, Ian. "Hitler". São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
    PAXTON, Robert. "Anatomia do fascismo". São Paulo: Paz e Terra, 2007.
    PARADA, Mauricio. (Org.) "Fascismos". Rio de Janeiro: Mauad, 2009.
    REICH, Wilhelm. "Psicologia de Massas do Fascismo". São Paulo: Martins Fontes, 2001.

    Filmes:

    HANEKE, Michael. "A fita branca". Áustria, Alemanha, França e Itália, Imovison, 2010.
    VERHOEVEN, Michael. "Uma cidade sem passado". Alemanha, ZDF, 1990.

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