A Teoria Liberal do Poder
“...enquanto subsiste o governo, o legislativo é o poder supremo;
o que deve dar leis a outrem deve necessariamente ser-lhe superior...o
legislativo necessariamente teria que ser supremo, e todos os outros poderes
em membros ou partes qualquer da sociedade dele derivados ou ele subordinados” .
John Locke- Segundo Ensaio sobre o Governo Civil, 1690.
Locke advogou a Teoria da Separação dos Poderes que influência de modo determinante Montesquieu(“O Espírito das Leis”-1748)
ABSOLUTISMO X LIBERALISMO
síntese
ABSOLUTISMO A
Na sua visão antropológica, o Homem nasce um servo, obrigado à obediência, à hierarquia e à ordem. Sua natureza, porém é dada a anarquia e à regressão selvática. O Estado da natureza é o reino da desconfiança e da violência, onde não existe lei ou ela é simplesmente a vontade do mais forte. É um estado de guerra.
LIBERALISMO A
Na antrolopologia liberal, o Homem nasce livre e igual, ainda que em condições materiais adversas . Sua natureza tende à sociabilidade e o convívio racional e pacífico com os demais membros da comunidade. A violência e as guerras são ocasionais, imperando no geral a cordialidade.
ABSOLUTISMO B
Logo somente uma autoridade dotada de poderes extraordinários(o monarca absolutista) é capaz de conduzir a comunidade à paz e à prosperidade . Esse poder pode ter sido advindo de um contrato ou emanado diretamente de Deus. A suposta liberdade natural em que todos os homens nascem foi alienada em favor da autoridade.
LIBERALISMO B
A autoridade que emerge é resultado de um contrato entre governantes e governados, sendo que os poderes do governante são claramente delimitados pela tradição e pela constituição. Se o governante não cumpre a sua parte no contrato, os governados podem socorrer ao direito à rebelião. A razão é que nenhum Homem pode alienar sua liberdade.
ABSOLUTISMO C
Esta autoridade, por sua vez, é divina ou é herança de Adão(visto como o primeiro rei) Seu poder encontra-se exclusivamente limitado pela tradição ou por Deus. Nenhuma assembleia ou parlamento pode impor-lhe limites, porque as origens do poder v~em do mundo transcendente.
LIBERALISMO C
A autoridade é natural e humana; o governante é servidor do povo. Não existe nenhuma prova de que o poder vem de Deus ou dos herdeiros de Adão. Tanto as assembleias como os--parlamentos podem impor-lhes limites
ABSOLUTISMO D
O melhor regime que encara a autoridade é a monarquia, cujo poder é e dever ser absoluto. O poder e a soberania são indivisíveis e fundem-se no monarca: o executivo(os ministros), o legislativo(o parlamento) e o judiciário(os magistrados)devem estar submetidos à vontade do rei.
LIBERALISMO D
O melhor regime político é uma Monarquia Constitucional, onde o poder se encontra dividido entre o executivo( o rei), o legislativo(o parlamento) e um judiciário autÔnomo . O poder encontra-se separado da soberania. A soberania é do povo. O poder é do rei.
ABSOLUTISMO E
Tudo que o indivíduo possui, liberdade ou propriedade, é condicional. Sua existência depende
dos interesses superiores do monarca, que é o único que garante o seu usufruto. O indivíduo está a serviço do estado.
LIBERALISMO E
A liberdade e a propriedade são direitos naturais que antecedem a existência do estado. Por consequência, o estado existe para garantir esses direitos e não para suprimi-los. O estado existe para servir o indivíduo e não este ao estado.
ABSOLUTISMO F
A Religião e a Igreja são auxiliares do monarca e seus subordinados na preservação da paz interna. Por consequência, aceita-se a interferência estatal nos assuntos religiosos para manutenção da harmonia social .
LIBERALISMO F
Estado e Igreja são universos distintos. Um trata das coisas terrenas, outro das coisas sagradas. Seus fins são diversos e devem manter-se separados. Um não deve intervir nos assuntos internos do outro.
ABSOLUTISMO G
Ideologicamente corresponde ou expressa a visão da aristocracia fundiária, da Corte, do Rei e seus ministros, da burocracia real- estatal, do Alto Clero e conta com o consentimento pacífico da população mais conservadora.
LIBERALISMO G
Ideologicamente corresponde à visão das classes médias, dos profissionais liberais, dos artesãos, dos industriais, de comerciantes e mercadores e também da gentry rural
-BILIOGRAFIA: Shilling, Voltaire. As Correntes do Pensamento; da Grécia antiga ao neoliberalismo. SÍNTESE DAS TEORIAS ABSOLUTISMO E LIBERALISMO p.63. Porto Alegre;AGE,1999.
quarta-feira, 24 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
O mercado X pessoas(sociedade)
Duas faces do mercado Karl Polanyi e Friedrich von Hayek
Karl Polanyi e Friedrich Hayek, dois intelectuais austríacos, nascidos nos finais do século XIX, viveram num circuito cultural e ideológico mais ou menos próximo, tanto em Viena como depois, na década dos anos trinta, em Londres. A obra deles, porém, os dois importantíssimos livros que eles publicaram em 1944, sem que tivessem conhecimento das suas respectivas teses, eram francamente opostos, marcando posições bem definidas quando a visão que eles tinham da história e da importância do mercado na sociedade contemporânea.
Mesma geração :Karl Polanyi, no centro, com seu irmão Michael e o amigo Popper (foto em Viena) “anteriormente à nossa época, nenhuma economia existiu, mesmo em princípio, que fosse controlada por mercados”.
K.Polanyi – A Grande Transformação”, 1944 “o controle econômico tende a paralisar as forças propulsoras da sociedade livre”
F.Hayek _ O Caminho da Servidão, 1944
Se bem que bem mais de dez anos separavam o nascimento de Karl Polanyi do de Friedrich von Hayek, ocorridos em Viena, um em 1886 e outro em 1899, pode-se dizer que ambos fizeram parte da mesma geração daqueles pensadores sociais austríacos que deitaram fama no mundo. Os dois, um de descendência judaica e o outro católico, além de terem a melhor das formações, serviram no exército do império Austro-húngaro durante a Iª Guerra Mundial, experiência da qual guardaram poucas boas lembranças. Enquanto Polanyi freqüentou os grupos radicais, encontrando-se com George Lukács e Karl Mannheim, Hayek logo abandonou suas inclinações de socialista moderado ao ser escolhido para trabalhar com Ludwig von Mises, um dos mais célebres teóricos da chamada Escola Austríaca.:Em Londres e em Vermon London School os Economics, uma das sedes da elite pensante inglesa . Por motivos diversos, eles terminaram por emigrar para a Grã-Bretanha nos anos trinta. Ao tempo em que Polanyi mostrou-se arredio a levar uma vida acadêmica regular, empregando-se como tutor, Hayek logo integrou-se no alto staff da elite pensante da Inglaterra. Quando a London School of Economics, onde ele era conferencista desde 1931, emigrou em 1940 para Cambridge, para escapar das bombas de Hitler, foi John M. Keynes quem abriu-lhe as portas para acomodá-lo. Os americanos, por sua volta, sempre atentos e generosos com os talentos que vagavam pelo mundo, não tardaram em convidar Polanyi para uma estada em Vermon, onde o Bennington College ofereceu-lhe a preciosa tranqüilidade para que ele escrevesse. Enquanto isso, lá na Inglaterra, Hayek também se mobilizava. Em 1944, os dois, sem saberem um do outro, lançaram dois livros seminais para a nossa época: o The Great Transformation ( A Grande Transformação), de Polanyi, e o Road to Serfdom ( O Caminho para a Servidão), de Hayek. Dificilmente dois intelectuais que viviam mais ou menos no mesmo circuito, o austro-anglo-saxão, aspirando mais ou menos o mesmo clima cultural e ideológico chegaram a conclusões tão divergentes.
O moinho satânico : No entender de Polanyi - ao fazer a reconstrução da expansão da economia de mercado na Grã-Bretanha do século XIX -, um novo tipo de sociedade havia emergido, distinta de tudo o que se conhecera até então. Nos sistemas produtivos anteriores à Revolução Industrial, os interesses econômicos eram mínimos, imperando as relações sociais e familiares. Porém, com a expansão do sistema fabril e os altos custos da sua implantação, foi preciso transformar a sociedade por inteiro tornando-a um imenso mercado regido pelo interesse e pelo lucro, sendo o trabalho um negócio como um outro qualquer. Num levantamento detalhado das leis inglesas daquela época (a privatização das terras, a Lei dos Pobres de 1834, a Lei da Reforma de 1831, que deu enorme poder aos empregadores, a Lei do Trigo em 1846, o estimulo a imigração ou a ampliação do sistema prisional), Polanyi mostrou como o estado, a serviço dos empreendedores, mobilizou-se para criar as condições em que a sociedade fosse submetida ao mercado. Não só isso, gerou-se um novo sistema social – a Grande Transformação - onde todos indivíduos tornaram-se “ átomos dispensáveis”, uma engrenagem que era de fato “ uma máquina... para qual o homem estava condenado a servir”. Para Polanyi deixá-la solta, sem maiores impedimentos e regulações, como pregavam os liberais, era excitá-la a ser um moedor de carne ou um “ moinho satânico” , como ele preferiu, destruindo todas as relações sociais.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htmhttp://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htm
Karl Polanyi e Friedrich Hayek, dois intelectuais austríacos, nascidos nos finais do século XIX, viveram num circuito cultural e ideológico mais ou menos próximo, tanto em Viena como depois, na década dos anos trinta, em Londres. A obra deles, porém, os dois importantíssimos livros que eles publicaram em 1944, sem que tivessem conhecimento das suas respectivas teses, eram francamente opostos, marcando posições bem definidas quando a visão que eles tinham da história e da importância do mercado na sociedade contemporânea.
Mesma geração :Karl Polanyi, no centro, com seu irmão Michael e o amigo Popper (foto em Viena) “anteriormente à nossa época, nenhuma economia existiu, mesmo em princípio, que fosse controlada por mercados”.
K.Polanyi – A Grande Transformação”, 1944 “o controle econômico tende a paralisar as forças propulsoras da sociedade livre”
F.Hayek _ O Caminho da Servidão, 1944
Se bem que bem mais de dez anos separavam o nascimento de Karl Polanyi do de Friedrich von Hayek, ocorridos em Viena, um em 1886 e outro em 1899, pode-se dizer que ambos fizeram parte da mesma geração daqueles pensadores sociais austríacos que deitaram fama no mundo. Os dois, um de descendência judaica e o outro católico, além de terem a melhor das formações, serviram no exército do império Austro-húngaro durante a Iª Guerra Mundial, experiência da qual guardaram poucas boas lembranças. Enquanto Polanyi freqüentou os grupos radicais, encontrando-se com George Lukács e Karl Mannheim, Hayek logo abandonou suas inclinações de socialista moderado ao ser escolhido para trabalhar com Ludwig von Mises, um dos mais célebres teóricos da chamada Escola Austríaca.:Em Londres e em Vermon London School os Economics, uma das sedes da elite pensante inglesa . Por motivos diversos, eles terminaram por emigrar para a Grã-Bretanha nos anos trinta. Ao tempo em que Polanyi mostrou-se arredio a levar uma vida acadêmica regular, empregando-se como tutor, Hayek logo integrou-se no alto staff da elite pensante da Inglaterra. Quando a London School of Economics, onde ele era conferencista desde 1931, emigrou em 1940 para Cambridge, para escapar das bombas de Hitler, foi John M. Keynes quem abriu-lhe as portas para acomodá-lo. Os americanos, por sua volta, sempre atentos e generosos com os talentos que vagavam pelo mundo, não tardaram em convidar Polanyi para uma estada em Vermon, onde o Bennington College ofereceu-lhe a preciosa tranqüilidade para que ele escrevesse. Enquanto isso, lá na Inglaterra, Hayek também se mobilizava. Em 1944, os dois, sem saberem um do outro, lançaram dois livros seminais para a nossa época: o The Great Transformation ( A Grande Transformação), de Polanyi, e o Road to Serfdom ( O Caminho para a Servidão), de Hayek. Dificilmente dois intelectuais que viviam mais ou menos no mesmo circuito, o austro-anglo-saxão, aspirando mais ou menos o mesmo clima cultural e ideológico chegaram a conclusões tão divergentes.
O moinho satânico : No entender de Polanyi - ao fazer a reconstrução da expansão da economia de mercado na Grã-Bretanha do século XIX -, um novo tipo de sociedade havia emergido, distinta de tudo o que se conhecera até então. Nos sistemas produtivos anteriores à Revolução Industrial, os interesses econômicos eram mínimos, imperando as relações sociais e familiares. Porém, com a expansão do sistema fabril e os altos custos da sua implantação, foi preciso transformar a sociedade por inteiro tornando-a um imenso mercado regido pelo interesse e pelo lucro, sendo o trabalho um negócio como um outro qualquer. Num levantamento detalhado das leis inglesas daquela época (a privatização das terras, a Lei dos Pobres de 1834, a Lei da Reforma de 1831, que deu enorme poder aos empregadores, a Lei do Trigo em 1846, o estimulo a imigração ou a ampliação do sistema prisional), Polanyi mostrou como o estado, a serviço dos empreendedores, mobilizou-se para criar as condições em que a sociedade fosse submetida ao mercado. Não só isso, gerou-se um novo sistema social – a Grande Transformação - onde todos indivíduos tornaram-se “ átomos dispensáveis”, uma engrenagem que era de fato “ uma máquina... para qual o homem estava condenado a servir”. Para Polanyi deixá-la solta, sem maiores impedimentos e regulações, como pregavam os liberais, era excitá-la a ser um moedor de carne ou um “ moinho satânico” , como ele preferiu, destruindo todas as relações sociais.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htmhttp://educaterra.terra.com.br/voltaire/index_cultura.htm
Certas permanências insistem....
CERTAS PERMANÊNCIAS insitem em nos cercear à vida. Pessoas de carne osso sentem-se com direitos divinos assegUrados pelo tempo( embora não mais pelas leis)e arrastam multidões ou pequenos séquitos para aliviar o peso das aparentes vestes. Mesmo no liberalismo permanecem regras de diferentes tipos de absolutismo...
EA
A Teoria do Direito Divino dos Reis –
FONTE:VOLTAIRE SHILLING http://educaterra.terra.com.br/voltaire/
No transcorrer do século XVII se fizeram cada vez mais presentes as teorias do Direito Divino dos Reis. Frente aos poderes formidáveis dos barões feudais, da Igreja Católica e os desafios impostos pela Reforma, uma série de pensadores europeus, de inclinação estatocrata, conceberam uma espécie de ‘terceira via’ entre o Império e o Papado. Defenderam uma teoria que afirmasse em caráter definitivo a autoridade e a legitimidade dos monarcas colocando-os acima da nobreza e do clero e dos protestantes.
A soberania do Estado
Em meio a uma França dilacerada pela guerra civil travada entre católicos e huguenotes, das ruínas da Noite de São Bartolomeu, tragédia que ensangüentou Paris em 1572, é que surgiu a obra de Jean Bodin intitulada Six Livres de La République ("Seis livros da República"), publicada em 1576. O grande jurista do parlamento de Paris, defendia integridade da soberania monárquica. De haver a necessidade da total concentração do poder nas mãos de um rei, cuja autoridade – perpétua e ilimitada - não podia ser contestada. O Estado era o ‘pupilo’, o Rei o seu ‘tutor’. A soberania dele não vinha do arcebispo de Reims, dos Doze Pares da França, muito menos do povo, mas diretamente de Deus, exercendo assim ‘ um poder supremo separado das leis’.
Evidentemente que tal disposição teórica abriu caminho para que no século seguinte o conceito de Estado Absolutista assumisse a forma de uma investidura real de Direito Divino.
A longa crise do sistema feudal europeu, no qual o localismo se opunha a centralização, acelerou-se a partir das lutas religiosas provocadas pela Reforma de 1517. Pulsões anárquicas tomavam conta da sociedade sacudida por rebeliões de toda ordem: revolta camponesa na Alemanha, acirramento do ódio teológico entre católicos e protestantes, as Guerras da Liga Católica contra a Liga da Religião Reformada, a revolução puritana na Inglaterra, etc..
Isto contribuiu para o surgimento de um discurso cada vez mais a favor da ordem geral e da necessidade de paz interna que somente poderia ser obtida num regime forte, no qual o rei era tudo e poderia tudo. Somente um monarca poderosíssimo, um ‘ príncipe perfeito’ é que poderia evitar o império da desordem e da dissolução.
No seu ensaio sobre as Lineages of the Absolutist State (Linhagens do Estado Absolutista, 1974), Perry Anderson mostrou como a centralização monárquica atuou para preservar o poder feudal ameaçado pelo vigor crescente da burguesia e de outros agentes dissolventes da velha ordem. O absolutismo foi a máscara política em que as arcaicas prerrogativas feudais se esconderam para sobreviver a era de grandes modificações (crescimento das cidades, expansão comercial seguida do desafio burguês, negócios ultramarinos, etc.)
O fato de ele impor - com a introdução de exércitos permanentes, a criação de sistemas fiscais nacional, a codificação do direito e implementação de princípios do mercado unificado - reformas que pareciam levar ao capitalismo, na verdade faziam parte de um enorme esforço - ainda que por outros meios - de sobrevivência da nobreza feudal.
Na França, o desconcerto provocado pelas oito guerras de religião do século XVI foi superado inicialmente pela Política dos Cardeais (os primeiros-ministros Richelieu e Mazarino, que governaram entre 1628 e 1661) Eles visavam trazer de volta a estabilidade. O manto escarlate dos cardeais é que sedimentou o caminho para Luis XIV posar com a toga de César e a coroa de Alexandre redivivo.
Os ministros do rei tinham contra si os ardores do municipalismo independente (no caso representado pelo parlamento de Paris), e a oposição dos grandes príncipes da França. Gente poderosa que não queria se sujeitar a uma autoridade cada vez mais centrada no trono, fatores que expressamente se manifestaram na revolta da Fronda (1648-1653). Além da permanente ameaça externa à França representada pela dinastia Habsburgo.
Contra o localismo, Richelieu lançou mão dos intendentes (da justiça, da polícia e das finanças), funcionários que atuavam em nome do monarca, formando assim um corpo uniforme com a missão expressa de levar a presença real a qualquer recanto. A missão deles era eliminar ou sufocar as resistências onde elas se manifestavam especialmente as das instituições municipais que se sentiam ofendidas pela presença intromissora dos intendentes.
O discurso justificador que emanou então do poder – especialmente o proferido pelo cardeal Richelieu - era o da Razão de Estado. Em nome da paz social e da segurança do pentágono ( as fronteiras ‘naturais’ da França: o Atlântico, os Pirineus, os Alpes, o Reno e o Mediterrâneo), as vontades privadas e os privilégios nobiliárquicos deviam submeter-se à autoridade do Estado. Mesmo a liberdade de culto alcançada pelos huguenotes pelo Édito de Nantes, de 1598, devia ser posta em questão e no momento oportuno revogada. Ela representava um aberto desafio ao príncipe reinante católico. (*)
(*) Nas diversas teorias sobre a emergência do absolutismo e da teoria do Direito Divino dos Reis salta a divergência entre os autores que asseguram ser ela um ato de legitima defesa monárquico contra a desordem provocada pelos de cima, pelos grandes do reino que se somava à heresia dos protestantes, com a outra que afirma que a verdadeira intenção do absolutismo e da monarquia divinizada era domesticar o campesinato europeu recém egresso da servidão da gleba e que devia ser mantido dócil a qualquer custo.
Origens mais remotas do Direito Divino
A aceitação da Doutrina do Direito Divino por larga parte do povo devia-se à causas psicológicas muito profundas que deitavam raízes nos tempos dos reis bíblicos. Acreditavam que eles operavam milagres. A prática dos reis taumaturgos, isto é, dos reis curandeiros, era muito popular em meio à população francesa na época da Idade Média, havendo então a crença de que os óleos sagrados de Reims, local onde os reis franceses eram coroados, serviam como um bálsamo às feridas dos doentes. Tornou-se inclusive obrigação dos soberanos organizarem cerimônias especiais nos dias festivos para poderem ‘tocar’ os desgraçados, livrando-os assim das tristes chagas que os atormentavam.
O rei Luis IX, o São Luis (rei da França entre 1226 e 1270), parece ter feito deste procedimento um dos seus instrumentos políticos para se autodesignar como Le Justicier Suprême e monarca de direito divino.
Marc Bloch que estudou detalhadamente este fenômeno de ‘cura coletiva’, mostrou como tal prática ajudou a consolidar o prestígio da monarquia aos olhos da multidão (ver “Os reis taumaturgos’). Daí o dito LE ROI TE TOUCHE, DIEU TE GUERIT! (O rei te toca, Deus te cura!)
A teoria do Direito Divino serviu por igual como um poderoso instrumento de transição da política medieval para a política moderna, afirmando a necessidade do trono se libertar da intromissão clerical, impondo o direito do estado ( do rei) contra o direito canônico ( da Igreja).
O Rei Divinizado - projeção tardia dos antigos imperadores romanos - adquiria um estatuto de autonomia frente ao Papado Sagrado e à Aristocracia de Sangue. Enquanto os teocratas do Vaticano defendiam a submissão de todos ao bispo de Roma, na França os estatocratas e teóricos do Direito Divino exigiam o mesmo frente ao seu rei.
Ele era o Grande Magistrado, o monopolizador da soberania, posicionado bem acima de todos, pairando altivo e magnífico sobre o estado e a sociedade, com o compromisso de fazer respeitar as Leis Fundamentais da França. Idêntico ao Deus ex machina, descia dos altos intervindo abertamente nos acontecimentos mais intricados que aparentemente não tinham solução.
Os estatocratas da Teoria do Direito Divino respondiam também com isto às afirmações subversivas difundidas pelos protestantes que anunciavam em todas as partes o direito à rebelião, quando não pregavam abertamente a ‘morte ao tirano’.
Estes defendiam a possibilidade legal de um príncipe convertido ao calvinismo ou ao luteranismo em resistir com violência a um imperador da antiga fé, caso o perseguisse por motivação religiosa, tal como respondera o jurista Gregory Brück a uma consulta de João da Saxônia, príncipe eleitor do Sacro Império, em 1530. Tese que também foi abraçada por Phillip Melanchton, humanista alemão seguidor de Lutero. Segundo a qual ‘às vezes pode ser lícito resistir a um juiz injusto’. (*).
Por isto se entende o dito de John Neville Figgis que afirmou: ‘ Não fosse Lutero jamais poderia ter havido um Luis XIV’.
Todavia não era somente do lado dos reformadores que se dava a desconfiança para com legitimidade da monarquia e a possibilidade de vir a derrubá-la. Na época das Guerras de Religião, por ocasião do surgimento da Liga Católica ou da Santa Liga, fundada em Paris em 1584, seus ideólogos, como Jean Boucher e Jean Prévost, a pretexto de reivindicarem os princípios da ‘soberania popular’, chegaram a propor a abolição do trono e sua substituição por um ditadura teocrática. Teoria subversiva que terminou por engendrar a antimonárquica Jornada das Barricadas, de 12 de maio de 1588 (ver E.Le Roy Ladurie – O Estado Monárquico, p.
O grande debate teórico-político do século XVII deu-se entre as proposições do Direito Divino, vitorioso na França, opostas à Teoria do Contrato Social mencionadas por Hobbes e por Locke que culminou na Gloriosa Revolução de 1689 na Inglaterra. (**)
(*) Sobre o efeito das doutrinas protestantes sobre o pensamento daquela época é importante a obra de Quentin Skinner ‘As fundações do pensamento político moderno’, 1978.
(*) John N. Figgis, o filósofo político, no seu famoso ensaio sobre o Direito Divino (The Divine Right of Kings, 1896), insistiu que aquela concepção surgiu como reação à presença excessiva da Igreja e o enorme corpo de funcionários do clero que agiam como se fosse um estado dentro do estado. Os reis ingleses agiram como nacionalistas, rejeitando o cosmopolitismo católico representando pelo Papado Romano, a quem se negavam a obedecer. Todavia, na França parece que a teoria foi usada mais como uma defesa da monarquia contra os Grandes (particularmente os príncipes que haviam aderido a Fronda, episódio de revolta e desordem que marcou profundamente a infância de Luis XIV)
Os textos básicos do Direito Divino
O primeiro deles é um texto atribuído ao próprio Luis XIV, conhecido como suas ‘Memórias’. Era um recorte de opiniões e reflexões feitas pelo rei ao redor de 1661-8, que foram anotadas por seus funcionários mais próximos. O seu objetivo: deixar um registro da arte de governar para o seu filho, daí ser o resultado conhecido como ‘Instruções para a educação do Delfim’, tendo no final algumas considerações sobre ‘o oficio de rei’.
Luis XIV, desde bem jovem, em seguida a morte do cardeal Mazarino, em 1661, decidira assumir a integridade do poder, não aceitando conviver com nenhum tipo de constrangimento que lhe pudesse advir de um primeiro-ministro forte ( como acontecera com seu pai Luis XIII, um monarca de fachada inteiramente dominado pelo cardeal Richelieu, e mesmo com sua mãe, a regente Ana de Áustria, total dependente do cardeal italiano).
Preocupou-se logo em impor um governo pessoal fazendo do rei um ‘estadista ativo’, projetando a plenitude da sua majestade.
Nas suas instruções deixa bem claro que o ‘rei é o representante de Deus na terra’. O que o move é a salus publica, o interesse e o bem estar do público. Nada, poder ou instituição ( conselho, tribunal ou parlamento), deve lhe barrar a vontade, nem mesmo as ordens reunidas nos Estados Gerais. Por igual, nenhuma potência espiritual poderia privá-lo dos sagrados direitos que recebera do Todo-Poderoso. A única majestade a quem ele devia obediência era ao Senhor dos Céus. Somente sua consciência lhe impunha limites, visto que, como Salomão fora nos tempos bíblicos, ele era o único capaz de arbitrar os conflitos entre a razão e as paixões, pois isto faz parte do ‘métier du roi’.
A psicologia do rei é inteiramente racional, sendo que sua posição está bem acima dos mortais devido às qualidades especiais que possui, visto que o descortino que tem das coisas do mundo é sem paralelo. Ocupando as alturas superiores do Estado ele tudo vê e tudo sabe. O trono tem olhos e ouvidos em todos os lugares: é um poder onisciente e onipresente. O desígnio dele é o reforçamento do Estado, que se identifica inteiramente com o soberano. A glória de um é idêntica a do outro.
Rei e Estado são a mesma coisa, exigindo sempre a obediência por parte dos súditos: un roi, une foi, une loi » (um rei, uma fé, uma lei)
Nas ‘Memórias’ ele foi categórico:
‘o interesse do Estado está em primeiro lugar. Deve-se forçar a própria inclinação e não se colocar em situação de arrependimento, quando se trata de algo importante, o qual podia ser feito melhor, mas que certos interesses particulares haviam desviado dos objetivos que deviam ter-se pela grandeza, pelo bem e poder do Estado.’
O lugar-tenente de Deus
O segundo dos textos canônicos da Teoria do Direito Divino surgiu de uma pessoa bem próxima a Luis XIV: o bispo Jacques-Bénigne Bossuet. Tratou-se de um eminente sermonista que, entre 1670 e 1680, foi preceptor do Delfim, o jovem príncipe filho de Luis, para quem escreveu o famoso tratado Politique tirée des propes paroles de l Escriture Sainte, ‘Política extraída das próprias palavras da Santa Escritura’ (1677-1701)
Não era um ensaio puramente teórico, mas sim prático: a intenção dele era educar o jovem herdeiro rei nos princípios do Absolutismo, sendo que o recurso à Bíblia é puramente retórico. Procurando responder sobre a origem última do estado, Bossuet é categórico: ele advém de um Decreto Divino ao tempo em que corresponde a uma necessidade natural das sociedades de serem governadas.
Todas as naturezas humanas devem estar sujeitas ao rei por meio de um Contrato de Submissão (totalmente oposto ao Contrato Social defendido pelos teóricos ingleses). Impensável, pois, algum súdito alegar direito de resistência ao Lugar-Tenente de Deus como pretendiam os teóricos calvinistas e luteranos. Das tantas formas políticas que existiram ao longo da história a monarquia é, no entender de Bossuet, a única legítima pois redunda em estabilidade. Ninguém pode criticá-la ou opor-se a ela porque ela foi consagrada pela tradição.
Neste momento então, Bossuet estabelece as quatro características da monarquia: é sagrada, é paternal, é absoluta e está em total harmonia com a razão.
Absoluto não é Arbitrário
O bispo teve o cuidado de separar o que ele denominou de gouvernement absolu (governo absoluto), no qual os súditos gozam de eficaz proteção de uma autoridade ligada às tradições e pelo que é ditado da razão, do outro, o gouvernement arbitraire (o governo arbitrário ou tirânico), no qual todo os súditos são escravos sacrificados a um déspota que não se orienta pela lei e pelos costumes, mas sim pelo capricho e pelo ato discricionário.
Ao fundir a teologia com a política, Bossuet foi considerado pelos tratadistas como um pensador superado no seu próprio século, mas isto não impediu que sua influência se projetasse por muito tempo, estendendo-se inclusive para o século XIX adentro servindo como alimento ideológico aos tradicionalistas reacionários da Espanha (primeiro com D.Fernando VII e depois com D.Carlos) e Portugal (o príncipe D. Miguel, apoiado por D.Carlota Joaquina).
Em contraposição ao ‘Leviatã’ de Hobbes, o entendimento da Monarquia Absoluta de Bossuet está longe de aceitar a existência aterradora de um estado-gigante exercendo seu poder uniforme sobre uma massa de indivíduos isolados. O Monarca Absoluto dele é um sol, mais ilumina e atrai do que oprime. É a estrela-maior de uma constelação formada por uma hierarquia de vassalos e súditos ligados pelo respeito comum aos antigos costumes e às instituições estabelecidas, da mesma forma como as leis gravitacionais de Newton explicavam a conformidade do Cosmo num todo equilibrado e harmônico.
Interessa ainda ressaltar a famosa passagem de advertência que Bossuet faz aos príncipes, alertando-os para a sua mortalidade: ‘Vocês são filhos do Todo-Poderoso’, escreveu ele, ‘ é ele quem estabelece vosso poder pelo bem do governo humano. Mas ó deuses de lama e pó, vocês morrem como homens’.
Assim, depois da monarquia francesa ter afastado os ingleses do continente, de ter neutralizado e depois banidos para sempre os huguenotes e conseguido domesticar e enquadrar a nobreza feudal, ela estava pronta para assumir ares divinos, encontrando na pessoa de Luis XIV a sua melhor personificação.
A nobre linhagem da monarquia francesa
Bossuet fez mais ainda. Num ensaio anterior ao Politique, intitulado Discours sur l´Histoire Universelle (Discurso sobre a História Universal, 1678-1681) discorre sobre as várias etapas vencidas pela história desde os tempos de Adão até Carlos Magno, associando o reino de Luis XIV a uma linhagem de eventos extraordinários que marcaram a humanidade desde a Criação.
É um enorme afresco que partindo do primeiro homem passa por Noé e o dilúvio, por Abraão, Moisés, pela queda de Tróia, pela fundação do Templo por Salomão, pela fundação de Roma por Rômulo, por Ciro e a reconstrução do Templo de Jerusalém, pela vitória definitiva de Cipião sobre Cartago, pelo nascimento de Jesus Cristo, pela adesão de Constantino ao cristianismo e, por último, culmina no estabelecimento de um novo império por parte de Carlos Magno.
A monarquia francesa dos Bourbon é, por conseguinte, a herdeira legitima e estágio derradeiro desta gigantesca epopéia que remonta aos primeiros momentos da humanidade e aos patriarcas fundadores da sociedade, sendo que a França - produto direto de patrocinadores eméritos e daquele grande conquistador, tendo igual valor aos da antiguidade - tem como missão ‘superá-los a todos em piedade, em sabedoria e na justiça’. (*)
(*) Certamente foi esta identificação de Luis XIV com os feitos épicos dos príncipes do passado, exaltada por Bossuet, quem inspirou o pintor Charles Le Brun a compor os magníficos painéis de Versalhes que explicitamente fazem a associação das campanhas militares do Rei-Sol com as façanhas dos conquistadores antigos.
O Rei-Máquina
Para abastecer as 50 fontes, os canais e mais de 600 chafarizes espalhados pelos jardins de Versalhes, foi preciso conceber um sistema especial de irrigação e abastecimento de água. O projeto do Marly-la-machine foi então levado a efeito por obra do arquiteto Jules Hardouin Mansart ( que continuou conduzindo Versalhes depois da morte do arquiteto Le Vau) e do pintor Charles le Brun que, entre 1682 e 1687, construíram um engenhoso aparelho de sucção de água colocado à beira do Rio Sena. Dali ele bombeava o necessário colina acima para um conjunto de reservatórios de onde a água, aproveitando-se das leis gravitacionais, tomava o caminho dos jardins.
Inspirando-se naquele perfeito maquinismo é que Jean-Marie Apostolidès, professor em Harvard, escreveu o ensaio Le roi-machine (O rei-máquina,1993) analisando a estruturação do poder estatal de Luis XIV. Do mesmo modo que o engenho de Marly-la-machine regava as árvores e as plantas e fazia jorrar tudo em Versalhes, assim os ideólogos do Direito Divino entendiam a função do monarca. Dele era a força que provia o reino, inundando-o com a prosperidade e o bem estar geral.
Esta simetria do Estado Monárquico com uma máquina perfeita e com a racionalidade em geral, por igual foi decorrente de um século que se deixou fascinar pelos novos engenhos que brotavam em todas as partes. Não foi sem motivos que os dois maiores pensadores da França dedicaram-se à matemática (Descartes) e até ao invento da máquina de calcular (Pascal): era o espírito do tempo.
Bibliografia
Anderson, Perry - El Estado Absolutista. Madri: Siglo XXI , 1980.
Apostolidès, Jean-Marie - O Rei-Máquina: espetáculo e política no tempo de Luís XIV. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1993.
Barudio, Günter - La época Del absolutismo y la Ilustración: 1648-1779. México: Siglo XXI Editores,1983.
Bercé, Yves-Marie - Nouvelle histoire de la France moderne, 5 vol., tome III, La naissance dramatique de l'absolutisme (1598-1661), Paris, Le Seuil, 1992.
Behrens, C.BV.A. - O Ancien Regime.Lisboa.Editorial Verbo. 1967.
Bernier, Olivier - Louis XIV; a Royal Life. Nova York: Doubleday, 1987
Bossuet - Discours sur l´histoire universelle. Paris: Garnier-Flammarion, 1966.
Burke, Peter - A Fabricação do Rei: a Construção da Imagem Pública Luis XIV, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
Carsten, Francis Ludwig (org.) - Historia del mundo moderno V - La supremacia de Francia 1648-1688, Barcelona;Editorial Ramon Sopena, s/d.
Cornette , Joël - Les années cardinales: chronique de la France (1599-1652), Paris, Sedes, 2000.
Cornette, Joel -. La Monarquie Absolute. De la Renaissance aux Lumières. Paris : Documentation Française, 2007.
Corvisier, André - La France de Louis XIV: 1643-1715, ordre intérieur et place en Europe, Paris, Sedes, coll. Regards sur l'histoire, 1979, 3e éd. 1990.
Dufreigne, Jean-Pierre - Luis XIV - as paixões e a glória (1661-1670).Lisboa, Livraria Bertrand, 2006.
Elias, Norbert - La sociedade cortesana. México:Fondo de Cultura Econômica, 1996.
Figgis, John Neville - El derecho divino de los reyes. México: Fondo de Cultura Econômica, 1982.
Goldmann, Lucien - Le Dieu caché - Étude sur la vision tragique dans les "Pensées" de Pascal et dans le théâtre de Racine. Paris: Gallimard, 1959.
Hauser, Arnold - História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Ladurie, Emmanuel Le Roy - O Estado Monárquico; França 1460-1610. São Paulo: Ci das Letras, 1994.
Ladurie, Emmanuel Le Roy - Saint-Simon ou o sistema da corte. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2004.
Lewis, W.H. - The splending century life in the France of Louis XIV. Londres: Wawwelamd Press, 1997.
Luis XIV - Memórias. México. Fondo de Cultura Econômica, 1989.
Mandrou, Robert - Francia en los siglos XVII y XVIII. Barcelona;Editorial Labor, 1973.
Mitford, Nancy - The sun king. Londres; Penguin, 1995.
Mousnier, Roland - Os Séculos XVI e XVII. História geral das Civilizações . São Paulo: Difel, 1957.
Mousnier, Roland - Les Institutions de la France sous la monarchie absolue - 1598-1789. Paris, PUF - Quadrige 2005 .
Nolhac, Pierre de - Trianon - Versailles et La Cour de France. Paris: Louis Conard, 1927.
Richelieu, Cardeal de - Testamento Político. São Paulo: Edipro,1995.
Rossi, Paolo - Os filósofos e as máquinas. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
Saint-Simon - Memoires of duc de Saint-Simon (1691-1723). Londres 1500 Books LLC, 3v. 2007
Schwartzenberg , Roger-Gerard- O Estado Espetáculo. São Paulo, Difel, 1978.
Skinner, Quentin - As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
Voltaire - El siglo de Luis XIV. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996.
EA
A Teoria do Direito Divino dos Reis –
FONTE:VOLTAIRE SHILLING http://educaterra.terra.com.br/voltaire/
No transcorrer do século XVII se fizeram cada vez mais presentes as teorias do Direito Divino dos Reis. Frente aos poderes formidáveis dos barões feudais, da Igreja Católica e os desafios impostos pela Reforma, uma série de pensadores europeus, de inclinação estatocrata, conceberam uma espécie de ‘terceira via’ entre o Império e o Papado. Defenderam uma teoria que afirmasse em caráter definitivo a autoridade e a legitimidade dos monarcas colocando-os acima da nobreza e do clero e dos protestantes.
A soberania do Estado
Em meio a uma França dilacerada pela guerra civil travada entre católicos e huguenotes, das ruínas da Noite de São Bartolomeu, tragédia que ensangüentou Paris em 1572, é que surgiu a obra de Jean Bodin intitulada Six Livres de La République ("Seis livros da República"), publicada em 1576. O grande jurista do parlamento de Paris, defendia integridade da soberania monárquica. De haver a necessidade da total concentração do poder nas mãos de um rei, cuja autoridade – perpétua e ilimitada - não podia ser contestada. O Estado era o ‘pupilo’, o Rei o seu ‘tutor’. A soberania dele não vinha do arcebispo de Reims, dos Doze Pares da França, muito menos do povo, mas diretamente de Deus, exercendo assim ‘ um poder supremo separado das leis’.
Evidentemente que tal disposição teórica abriu caminho para que no século seguinte o conceito de Estado Absolutista assumisse a forma de uma investidura real de Direito Divino.
A longa crise do sistema feudal europeu, no qual o localismo se opunha a centralização, acelerou-se a partir das lutas religiosas provocadas pela Reforma de 1517. Pulsões anárquicas tomavam conta da sociedade sacudida por rebeliões de toda ordem: revolta camponesa na Alemanha, acirramento do ódio teológico entre católicos e protestantes, as Guerras da Liga Católica contra a Liga da Religião Reformada, a revolução puritana na Inglaterra, etc..
Isto contribuiu para o surgimento de um discurso cada vez mais a favor da ordem geral e da necessidade de paz interna que somente poderia ser obtida num regime forte, no qual o rei era tudo e poderia tudo. Somente um monarca poderosíssimo, um ‘ príncipe perfeito’ é que poderia evitar o império da desordem e da dissolução.
No seu ensaio sobre as Lineages of the Absolutist State (Linhagens do Estado Absolutista, 1974), Perry Anderson mostrou como a centralização monárquica atuou para preservar o poder feudal ameaçado pelo vigor crescente da burguesia e de outros agentes dissolventes da velha ordem. O absolutismo foi a máscara política em que as arcaicas prerrogativas feudais se esconderam para sobreviver a era de grandes modificações (crescimento das cidades, expansão comercial seguida do desafio burguês, negócios ultramarinos, etc.)
O fato de ele impor - com a introdução de exércitos permanentes, a criação de sistemas fiscais nacional, a codificação do direito e implementação de princípios do mercado unificado - reformas que pareciam levar ao capitalismo, na verdade faziam parte de um enorme esforço - ainda que por outros meios - de sobrevivência da nobreza feudal.
Na França, o desconcerto provocado pelas oito guerras de religião do século XVI foi superado inicialmente pela Política dos Cardeais (os primeiros-ministros Richelieu e Mazarino, que governaram entre 1628 e 1661) Eles visavam trazer de volta a estabilidade. O manto escarlate dos cardeais é que sedimentou o caminho para Luis XIV posar com a toga de César e a coroa de Alexandre redivivo.
Os ministros do rei tinham contra si os ardores do municipalismo independente (no caso representado pelo parlamento de Paris), e a oposição dos grandes príncipes da França. Gente poderosa que não queria se sujeitar a uma autoridade cada vez mais centrada no trono, fatores que expressamente se manifestaram na revolta da Fronda (1648-1653). Além da permanente ameaça externa à França representada pela dinastia Habsburgo.
Contra o localismo, Richelieu lançou mão dos intendentes (da justiça, da polícia e das finanças), funcionários que atuavam em nome do monarca, formando assim um corpo uniforme com a missão expressa de levar a presença real a qualquer recanto. A missão deles era eliminar ou sufocar as resistências onde elas se manifestavam especialmente as das instituições municipais que se sentiam ofendidas pela presença intromissora dos intendentes.
O discurso justificador que emanou então do poder – especialmente o proferido pelo cardeal Richelieu - era o da Razão de Estado. Em nome da paz social e da segurança do pentágono ( as fronteiras ‘naturais’ da França: o Atlântico, os Pirineus, os Alpes, o Reno e o Mediterrâneo), as vontades privadas e os privilégios nobiliárquicos deviam submeter-se à autoridade do Estado. Mesmo a liberdade de culto alcançada pelos huguenotes pelo Édito de Nantes, de 1598, devia ser posta em questão e no momento oportuno revogada. Ela representava um aberto desafio ao príncipe reinante católico. (*)
(*) Nas diversas teorias sobre a emergência do absolutismo e da teoria do Direito Divino dos Reis salta a divergência entre os autores que asseguram ser ela um ato de legitima defesa monárquico contra a desordem provocada pelos de cima, pelos grandes do reino que se somava à heresia dos protestantes, com a outra que afirma que a verdadeira intenção do absolutismo e da monarquia divinizada era domesticar o campesinato europeu recém egresso da servidão da gleba e que devia ser mantido dócil a qualquer custo.
Origens mais remotas do Direito Divino
A aceitação da Doutrina do Direito Divino por larga parte do povo devia-se à causas psicológicas muito profundas que deitavam raízes nos tempos dos reis bíblicos. Acreditavam que eles operavam milagres. A prática dos reis taumaturgos, isto é, dos reis curandeiros, era muito popular em meio à população francesa na época da Idade Média, havendo então a crença de que os óleos sagrados de Reims, local onde os reis franceses eram coroados, serviam como um bálsamo às feridas dos doentes. Tornou-se inclusive obrigação dos soberanos organizarem cerimônias especiais nos dias festivos para poderem ‘tocar’ os desgraçados, livrando-os assim das tristes chagas que os atormentavam.
O rei Luis IX, o São Luis (rei da França entre 1226 e 1270), parece ter feito deste procedimento um dos seus instrumentos políticos para se autodesignar como Le Justicier Suprême e monarca de direito divino.
Marc Bloch que estudou detalhadamente este fenômeno de ‘cura coletiva’, mostrou como tal prática ajudou a consolidar o prestígio da monarquia aos olhos da multidão (ver “Os reis taumaturgos’). Daí o dito LE ROI TE TOUCHE, DIEU TE GUERIT! (O rei te toca, Deus te cura!)
A teoria do Direito Divino serviu por igual como um poderoso instrumento de transição da política medieval para a política moderna, afirmando a necessidade do trono se libertar da intromissão clerical, impondo o direito do estado ( do rei) contra o direito canônico ( da Igreja).
O Rei Divinizado - projeção tardia dos antigos imperadores romanos - adquiria um estatuto de autonomia frente ao Papado Sagrado e à Aristocracia de Sangue. Enquanto os teocratas do Vaticano defendiam a submissão de todos ao bispo de Roma, na França os estatocratas e teóricos do Direito Divino exigiam o mesmo frente ao seu rei.
Ele era o Grande Magistrado, o monopolizador da soberania, posicionado bem acima de todos, pairando altivo e magnífico sobre o estado e a sociedade, com o compromisso de fazer respeitar as Leis Fundamentais da França. Idêntico ao Deus ex machina, descia dos altos intervindo abertamente nos acontecimentos mais intricados que aparentemente não tinham solução.
Os estatocratas da Teoria do Direito Divino respondiam também com isto às afirmações subversivas difundidas pelos protestantes que anunciavam em todas as partes o direito à rebelião, quando não pregavam abertamente a ‘morte ao tirano’.
Estes defendiam a possibilidade legal de um príncipe convertido ao calvinismo ou ao luteranismo em resistir com violência a um imperador da antiga fé, caso o perseguisse por motivação religiosa, tal como respondera o jurista Gregory Brück a uma consulta de João da Saxônia, príncipe eleitor do Sacro Império, em 1530. Tese que também foi abraçada por Phillip Melanchton, humanista alemão seguidor de Lutero. Segundo a qual ‘às vezes pode ser lícito resistir a um juiz injusto’. (*).
Por isto se entende o dito de John Neville Figgis que afirmou: ‘ Não fosse Lutero jamais poderia ter havido um Luis XIV’.
Todavia não era somente do lado dos reformadores que se dava a desconfiança para com legitimidade da monarquia e a possibilidade de vir a derrubá-la. Na época das Guerras de Religião, por ocasião do surgimento da Liga Católica ou da Santa Liga, fundada em Paris em 1584, seus ideólogos, como Jean Boucher e Jean Prévost, a pretexto de reivindicarem os princípios da ‘soberania popular’, chegaram a propor a abolição do trono e sua substituição por um ditadura teocrática. Teoria subversiva que terminou por engendrar a antimonárquica Jornada das Barricadas, de 12 de maio de 1588 (ver E.Le Roy Ladurie – O Estado Monárquico, p.
O grande debate teórico-político do século XVII deu-se entre as proposições do Direito Divino, vitorioso na França, opostas à Teoria do Contrato Social mencionadas por Hobbes e por Locke que culminou na Gloriosa Revolução de 1689 na Inglaterra. (**)
(*) Sobre o efeito das doutrinas protestantes sobre o pensamento daquela época é importante a obra de Quentin Skinner ‘As fundações do pensamento político moderno’, 1978.
(*) John N. Figgis, o filósofo político, no seu famoso ensaio sobre o Direito Divino (The Divine Right of Kings, 1896), insistiu que aquela concepção surgiu como reação à presença excessiva da Igreja e o enorme corpo de funcionários do clero que agiam como se fosse um estado dentro do estado. Os reis ingleses agiram como nacionalistas, rejeitando o cosmopolitismo católico representando pelo Papado Romano, a quem se negavam a obedecer. Todavia, na França parece que a teoria foi usada mais como uma defesa da monarquia contra os Grandes (particularmente os príncipes que haviam aderido a Fronda, episódio de revolta e desordem que marcou profundamente a infância de Luis XIV)
Os textos básicos do Direito Divino
O primeiro deles é um texto atribuído ao próprio Luis XIV, conhecido como suas ‘Memórias’. Era um recorte de opiniões e reflexões feitas pelo rei ao redor de 1661-8, que foram anotadas por seus funcionários mais próximos. O seu objetivo: deixar um registro da arte de governar para o seu filho, daí ser o resultado conhecido como ‘Instruções para a educação do Delfim’, tendo no final algumas considerações sobre ‘o oficio de rei’.
Luis XIV, desde bem jovem, em seguida a morte do cardeal Mazarino, em 1661, decidira assumir a integridade do poder, não aceitando conviver com nenhum tipo de constrangimento que lhe pudesse advir de um primeiro-ministro forte ( como acontecera com seu pai Luis XIII, um monarca de fachada inteiramente dominado pelo cardeal Richelieu, e mesmo com sua mãe, a regente Ana de Áustria, total dependente do cardeal italiano).
Preocupou-se logo em impor um governo pessoal fazendo do rei um ‘estadista ativo’, projetando a plenitude da sua majestade.
Nas suas instruções deixa bem claro que o ‘rei é o representante de Deus na terra’. O que o move é a salus publica, o interesse e o bem estar do público. Nada, poder ou instituição ( conselho, tribunal ou parlamento), deve lhe barrar a vontade, nem mesmo as ordens reunidas nos Estados Gerais. Por igual, nenhuma potência espiritual poderia privá-lo dos sagrados direitos que recebera do Todo-Poderoso. A única majestade a quem ele devia obediência era ao Senhor dos Céus. Somente sua consciência lhe impunha limites, visto que, como Salomão fora nos tempos bíblicos, ele era o único capaz de arbitrar os conflitos entre a razão e as paixões, pois isto faz parte do ‘métier du roi’.
A psicologia do rei é inteiramente racional, sendo que sua posição está bem acima dos mortais devido às qualidades especiais que possui, visto que o descortino que tem das coisas do mundo é sem paralelo. Ocupando as alturas superiores do Estado ele tudo vê e tudo sabe. O trono tem olhos e ouvidos em todos os lugares: é um poder onisciente e onipresente. O desígnio dele é o reforçamento do Estado, que se identifica inteiramente com o soberano. A glória de um é idêntica a do outro.
Rei e Estado são a mesma coisa, exigindo sempre a obediência por parte dos súditos: un roi, une foi, une loi » (um rei, uma fé, uma lei)
Nas ‘Memórias’ ele foi categórico:
‘o interesse do Estado está em primeiro lugar. Deve-se forçar a própria inclinação e não se colocar em situação de arrependimento, quando se trata de algo importante, o qual podia ser feito melhor, mas que certos interesses particulares haviam desviado dos objetivos que deviam ter-se pela grandeza, pelo bem e poder do Estado.’
O lugar-tenente de Deus
O segundo dos textos canônicos da Teoria do Direito Divino surgiu de uma pessoa bem próxima a Luis XIV: o bispo Jacques-Bénigne Bossuet. Tratou-se de um eminente sermonista que, entre 1670 e 1680, foi preceptor do Delfim, o jovem príncipe filho de Luis, para quem escreveu o famoso tratado Politique tirée des propes paroles de l Escriture Sainte, ‘Política extraída das próprias palavras da Santa Escritura’ (1677-1701)
Não era um ensaio puramente teórico, mas sim prático: a intenção dele era educar o jovem herdeiro rei nos princípios do Absolutismo, sendo que o recurso à Bíblia é puramente retórico. Procurando responder sobre a origem última do estado, Bossuet é categórico: ele advém de um Decreto Divino ao tempo em que corresponde a uma necessidade natural das sociedades de serem governadas.
Todas as naturezas humanas devem estar sujeitas ao rei por meio de um Contrato de Submissão (totalmente oposto ao Contrato Social defendido pelos teóricos ingleses). Impensável, pois, algum súdito alegar direito de resistência ao Lugar-Tenente de Deus como pretendiam os teóricos calvinistas e luteranos. Das tantas formas políticas que existiram ao longo da história a monarquia é, no entender de Bossuet, a única legítima pois redunda em estabilidade. Ninguém pode criticá-la ou opor-se a ela porque ela foi consagrada pela tradição.
Neste momento então, Bossuet estabelece as quatro características da monarquia: é sagrada, é paternal, é absoluta e está em total harmonia com a razão.
Absoluto não é Arbitrário
O bispo teve o cuidado de separar o que ele denominou de gouvernement absolu (governo absoluto), no qual os súditos gozam de eficaz proteção de uma autoridade ligada às tradições e pelo que é ditado da razão, do outro, o gouvernement arbitraire (o governo arbitrário ou tirânico), no qual todo os súditos são escravos sacrificados a um déspota que não se orienta pela lei e pelos costumes, mas sim pelo capricho e pelo ato discricionário.
Ao fundir a teologia com a política, Bossuet foi considerado pelos tratadistas como um pensador superado no seu próprio século, mas isto não impediu que sua influência se projetasse por muito tempo, estendendo-se inclusive para o século XIX adentro servindo como alimento ideológico aos tradicionalistas reacionários da Espanha (primeiro com D.Fernando VII e depois com D.Carlos) e Portugal (o príncipe D. Miguel, apoiado por D.Carlota Joaquina).
Em contraposição ao ‘Leviatã’ de Hobbes, o entendimento da Monarquia Absoluta de Bossuet está longe de aceitar a existência aterradora de um estado-gigante exercendo seu poder uniforme sobre uma massa de indivíduos isolados. O Monarca Absoluto dele é um sol, mais ilumina e atrai do que oprime. É a estrela-maior de uma constelação formada por uma hierarquia de vassalos e súditos ligados pelo respeito comum aos antigos costumes e às instituições estabelecidas, da mesma forma como as leis gravitacionais de Newton explicavam a conformidade do Cosmo num todo equilibrado e harmônico.
Interessa ainda ressaltar a famosa passagem de advertência que Bossuet faz aos príncipes, alertando-os para a sua mortalidade: ‘Vocês são filhos do Todo-Poderoso’, escreveu ele, ‘ é ele quem estabelece vosso poder pelo bem do governo humano. Mas ó deuses de lama e pó, vocês morrem como homens’.
Assim, depois da monarquia francesa ter afastado os ingleses do continente, de ter neutralizado e depois banidos para sempre os huguenotes e conseguido domesticar e enquadrar a nobreza feudal, ela estava pronta para assumir ares divinos, encontrando na pessoa de Luis XIV a sua melhor personificação.
A nobre linhagem da monarquia francesa
Bossuet fez mais ainda. Num ensaio anterior ao Politique, intitulado Discours sur l´Histoire Universelle (Discurso sobre a História Universal, 1678-1681) discorre sobre as várias etapas vencidas pela história desde os tempos de Adão até Carlos Magno, associando o reino de Luis XIV a uma linhagem de eventos extraordinários que marcaram a humanidade desde a Criação.
É um enorme afresco que partindo do primeiro homem passa por Noé e o dilúvio, por Abraão, Moisés, pela queda de Tróia, pela fundação do Templo por Salomão, pela fundação de Roma por Rômulo, por Ciro e a reconstrução do Templo de Jerusalém, pela vitória definitiva de Cipião sobre Cartago, pelo nascimento de Jesus Cristo, pela adesão de Constantino ao cristianismo e, por último, culmina no estabelecimento de um novo império por parte de Carlos Magno.
A monarquia francesa dos Bourbon é, por conseguinte, a herdeira legitima e estágio derradeiro desta gigantesca epopéia que remonta aos primeiros momentos da humanidade e aos patriarcas fundadores da sociedade, sendo que a França - produto direto de patrocinadores eméritos e daquele grande conquistador, tendo igual valor aos da antiguidade - tem como missão ‘superá-los a todos em piedade, em sabedoria e na justiça’. (*)
(*) Certamente foi esta identificação de Luis XIV com os feitos épicos dos príncipes do passado, exaltada por Bossuet, quem inspirou o pintor Charles Le Brun a compor os magníficos painéis de Versalhes que explicitamente fazem a associação das campanhas militares do Rei-Sol com as façanhas dos conquistadores antigos.
O Rei-Máquina
Para abastecer as 50 fontes, os canais e mais de 600 chafarizes espalhados pelos jardins de Versalhes, foi preciso conceber um sistema especial de irrigação e abastecimento de água. O projeto do Marly-la-machine foi então levado a efeito por obra do arquiteto Jules Hardouin Mansart ( que continuou conduzindo Versalhes depois da morte do arquiteto Le Vau) e do pintor Charles le Brun que, entre 1682 e 1687, construíram um engenhoso aparelho de sucção de água colocado à beira do Rio Sena. Dali ele bombeava o necessário colina acima para um conjunto de reservatórios de onde a água, aproveitando-se das leis gravitacionais, tomava o caminho dos jardins.
Inspirando-se naquele perfeito maquinismo é que Jean-Marie Apostolidès, professor em Harvard, escreveu o ensaio Le roi-machine (O rei-máquina,1993) analisando a estruturação do poder estatal de Luis XIV. Do mesmo modo que o engenho de Marly-la-machine regava as árvores e as plantas e fazia jorrar tudo em Versalhes, assim os ideólogos do Direito Divino entendiam a função do monarca. Dele era a força que provia o reino, inundando-o com a prosperidade e o bem estar geral.
Esta simetria do Estado Monárquico com uma máquina perfeita e com a racionalidade em geral, por igual foi decorrente de um século que se deixou fascinar pelos novos engenhos que brotavam em todas as partes. Não foi sem motivos que os dois maiores pensadores da França dedicaram-se à matemática (Descartes) e até ao invento da máquina de calcular (Pascal): era o espírito do tempo.
Bibliografia
Anderson, Perry - El Estado Absolutista. Madri: Siglo XXI , 1980.
Apostolidès, Jean-Marie - O Rei-Máquina: espetáculo e política no tempo de Luís XIV. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1993.
Barudio, Günter - La época Del absolutismo y la Ilustración: 1648-1779. México: Siglo XXI Editores,1983.
Bercé, Yves-Marie - Nouvelle histoire de la France moderne, 5 vol., tome III, La naissance dramatique de l'absolutisme (1598-1661), Paris, Le Seuil, 1992.
Behrens, C.BV.A. - O Ancien Regime.Lisboa.Editorial Verbo. 1967.
Bernier, Olivier - Louis XIV; a Royal Life. Nova York: Doubleday, 1987
Bossuet - Discours sur l´histoire universelle. Paris: Garnier-Flammarion, 1966.
Burke, Peter - A Fabricação do Rei: a Construção da Imagem Pública Luis XIV, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
Carsten, Francis Ludwig (org.) - Historia del mundo moderno V - La supremacia de Francia 1648-1688, Barcelona;Editorial Ramon Sopena, s/d.
Cornette , Joël - Les années cardinales: chronique de la France (1599-1652), Paris, Sedes, 2000.
Cornette, Joel -. La Monarquie Absolute. De la Renaissance aux Lumières. Paris : Documentation Française, 2007.
Corvisier, André - La France de Louis XIV: 1643-1715, ordre intérieur et place en Europe, Paris, Sedes, coll. Regards sur l'histoire, 1979, 3e éd. 1990.
Dufreigne, Jean-Pierre - Luis XIV - as paixões e a glória (1661-1670).Lisboa, Livraria Bertrand, 2006.
Elias, Norbert - La sociedade cortesana. México:Fondo de Cultura Econômica, 1996.
Figgis, John Neville - El derecho divino de los reyes. México: Fondo de Cultura Econômica, 1982.
Goldmann, Lucien - Le Dieu caché - Étude sur la vision tragique dans les "Pensées" de Pascal et dans le théâtre de Racine. Paris: Gallimard, 1959.
Hauser, Arnold - História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
Ladurie, Emmanuel Le Roy - O Estado Monárquico; França 1460-1610. São Paulo: Ci das Letras, 1994.
Ladurie, Emmanuel Le Roy - Saint-Simon ou o sistema da corte. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2004.
Lewis, W.H. - The splending century life in the France of Louis XIV. Londres: Wawwelamd Press, 1997.
Luis XIV - Memórias. México. Fondo de Cultura Econômica, 1989.
Mandrou, Robert - Francia en los siglos XVII y XVIII. Barcelona;Editorial Labor, 1973.
Mitford, Nancy - The sun king. Londres; Penguin, 1995.
Mousnier, Roland - Os Séculos XVI e XVII. História geral das Civilizações . São Paulo: Difel, 1957.
Mousnier, Roland - Les Institutions de la France sous la monarchie absolue - 1598-1789. Paris, PUF - Quadrige 2005 .
Nolhac, Pierre de - Trianon - Versailles et La Cour de France. Paris: Louis Conard, 1927.
Richelieu, Cardeal de - Testamento Político. São Paulo: Edipro,1995.
Rossi, Paolo - Os filósofos e as máquinas. São Paulo: Cia das Letras, 1989.
Saint-Simon - Memoires of duc de Saint-Simon (1691-1723). Londres 1500 Books LLC, 3v. 2007
Schwartzenberg , Roger-Gerard- O Estado Espetáculo. São Paulo, Difel, 1978.
Skinner, Quentin - As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
Voltaire - El siglo de Luis XIV. México: Fondo de Cultura Econômica, 1996.
terça-feira, 9 de março de 2010
PRA REFLETIR
PARA REFLEXÃO. VOTOS DOS HISTORIADORES NO CAFÉ HISTÓRIA
Um tema que mobilizou muitos leitores: com você avalia o setor da educação na "Era Lula"? Do total de votos, a classificação "Bom" foi a vitoriosa, com 23,53%. Mas quem pensa que a votação foi fácil se engana. Todas as opções tiveram seus votos. Na ordem: Razoável (23,33%), Ruim (18,04%), Péssimo (16,08%), Muito Bom (13,53%) e Excelente (5,95%). Diversas pessoas comentaram na enquete. Quer ver os comentários e ainda votar? Clique aqui.
Total de Votos: 510
E N Q U E T E
Você concorda com a reserva de vagas para negros em universidades públicas brasileiras?
Sim 35,86% (213 votos)
Não 60,61% (360 votos)
Ainda sem opinião formada 3,54% (21 votos)
Total: 594 votos
VOTAÇÃO EM ANDAMENTO
Um tema que mobilizou muitos leitores: com você avalia o setor da educação na "Era Lula"? Do total de votos, a classificação "Bom" foi a vitoriosa, com 23,53%. Mas quem pensa que a votação foi fácil se engana. Todas as opções tiveram seus votos. Na ordem: Razoável (23,33%), Ruim (18,04%), Péssimo (16,08%), Muito Bom (13,53%) e Excelente (5,95%). Diversas pessoas comentaram na enquete. Quer ver os comentários e ainda votar? Clique aqui.
Total de Votos: 510
E N Q U E T E
Você concorda com a reserva de vagas para negros em universidades públicas brasileiras?
Sim 35,86% (213 votos)
Não 60,61% (360 votos)
Ainda sem opinião formada 3,54% (21 votos)
Total: 594 votos
VOTAÇÃO EM ANDAMENTO
segunda-feira, 8 de março de 2010
DILEMAS EM EDUCAÇÃO
Dilemas educação e GEOGRAFIA:
(....) parece ser o papel do professor bem mais complexo do que a simples tarefa de transmitir o conhecimento já produzido. O professor, durante sua formação inicial ou continuada, precisa compreender o próprio processo de construção e produção de conhecimento escolar, entender as diferenças e semelhanças do processo de produção do saber científico e do saber escolar, conhecer as características da cultura escolar, saber a história da ciência e a história do ensino da ciência com que trabalha e em que pontos elas se relacionam. (Pereira, 2000, p. 47).
PEREIRA, Júlio Emílio Diniz. Formação de professores: pesquisas, representações e poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2000
(...) ensinar já não significa transferir pacotes sucateados, nem mesmo significa meramente repassar o saber. Seu conteúdo correto é motivar o processo emancipatório com base em saber crítico, criativo, atualizado, competente. Trata-se, não de cercear, temer, controlar a competência de quem aprende, mas de abrir a chance na dimensão maior possível. Não interessa o discípulo mas o novo mestre. Entre o professor e o aluno não se estabelece apenas hierarquização verticalizada, que divide papéis pela forma do autoritarismo, mas, sobretudo, confronto dialético. Este, alimenta-se da realidade histórica formada por entidades concretas que se relacionam de modo autônomo, como sujeitos sociais plenos.
(Demo, 1993, p. 153).
DEMO, Pedro. Desafios modernos da educação. Petrópolis: Vozes, 1993
É preciso assegurar que a formação de professores possibilite ao profissional docente saber lidar com o processo formativo dos alunos em suas várias dimensões, além da cognitiva, englobando a dimensão afetiva, da educação dos sentidos, da estética, da ética e dos valores emocionais. (2006, p. 69).
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
A vida em sociedade pressupõe a criação e o cumprimento de regras e preceitos capazes de nortear as relações, possibilitar o diálogo, a cooperação e a troca entre membros deste grupo social (sobretudo numa sociedade complexa como a nossa). A escola, por sua vez, também precisa de regras e normas orientadas do seu funcionamento e da convivência entre os diferentes elementos que nela atuam. Nesse sentido, as normas deixam de ser vistas apenas como prescrições castradoras, e passam a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social. (1996, p 86).
PASSOS, Laurizete Ferragut. A indisciplina e o cotidiano escolar: novas abordagens, novos significados. In: AQUINO, Julio G. (org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus,1996. p. 117- 127.
“Com relação à docência em geografia, Cavalcanti salienta que há um processo complexo de relação entre o conhecimento acadêmico (os específicos da geografia e os didático-pedagógicos) e os conhecimentos da experiência pessoal dos professores. A articulação entre esses conhecimentos será referência para construção do seu referencial profissional. Ao se deparar com um conteúdo a ser ensinado, o professor dispõe: de uma experiência pessoal com a aprendizagem desse conteúdo; de experiências anteriores de ensino desse conteúdo; de conhecimentos científicos sobre esses conteúdos em sua formação inicial e contínua; de livros didáticos e outros materiais de iniciação de conteúdos; de experiências e materiais didáticos produzidos por colegas; de uma estrutura de funcionamento e de encaminhamentos de formas de trabalho com o conteúdo de ensino na escola em que trabalha. (Cavalcanti, 2006, p 122-123)”. .
CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia escolar na formação e prática docentes: o professor e seu
conhecimento geográfico. In: SILVA, Aida Maria M. et. al. Educação formal e não formal, processos formativos
e saberes pedagógicos: desafios para inclusão social. Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino.
Recife: ENDIPE, 2006. p. 109 – 126.
A geografia é uma ciência que tem como objeto central o estudo do espaço e as relações que se estabelecem na sua formação. A compreensão das dinâmicas existentes nesse espaço, onde o homem por meio das relações de trabalho, apropria-se da natureza e modifica-a, é premissa básica do seu ensino. Tendo em vista esse papel importante da geografia, é fundamental ter claro o que é ser professor de geografia nos dias atuais. Esse profissional deve dominar referências que lhe permitam o desenvolvimento de um pensar autônomo, para que possa organizar seus saberes na produção de conhecimento que mobilizará na sua prática docente. Assim, terá condições de organizar suas propostas de trabalho e de mediar todas as etapas do processo de ensino e aprendizagem em sala de aula.
A educação escolar tem um papel essencial no aperfeiçoamento do ser humano e no desenvolvimento da sociedade. Como um mecanismo que favorece a intervenção no processo de transformação social, pode contribuir para o avanço no processo de inclusão e a minimização dos efeitos da pobreza, da submissão e da opressão. Isso pressupõe que se faça uma opção no pensar e agir no espaço educativo na busca de um projeto político-pedagógico que tenha identidade com as classes menos privilegiadas da sociedade.
P.173 w w w.mercator.ufc.br Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 08, número 16, 2009
CONSTRUÇÃO DOS SABERES DOCENTES
DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA
Profa. Msc. Rosa Elisabete Militz Wypyczynski Martins
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS DOI: 10.4215/RM2009.0816.0013
(....) parece ser o papel do professor bem mais complexo do que a simples tarefa de transmitir o conhecimento já produzido. O professor, durante sua formação inicial ou continuada, precisa compreender o próprio processo de construção e produção de conhecimento escolar, entender as diferenças e semelhanças do processo de produção do saber científico e do saber escolar, conhecer as características da cultura escolar, saber a história da ciência e a história do ensino da ciência com que trabalha e em que pontos elas se relacionam. (Pereira, 2000, p. 47).
PEREIRA, Júlio Emílio Diniz. Formação de professores: pesquisas, representações e poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2000
(...) ensinar já não significa transferir pacotes sucateados, nem mesmo significa meramente repassar o saber. Seu conteúdo correto é motivar o processo emancipatório com base em saber crítico, criativo, atualizado, competente. Trata-se, não de cercear, temer, controlar a competência de quem aprende, mas de abrir a chance na dimensão maior possível. Não interessa o discípulo mas o novo mestre. Entre o professor e o aluno não se estabelece apenas hierarquização verticalizada, que divide papéis pela forma do autoritarismo, mas, sobretudo, confronto dialético. Este, alimenta-se da realidade histórica formada por entidades concretas que se relacionam de modo autônomo, como sujeitos sociais plenos.
(Demo, 1993, p. 153).
DEMO, Pedro. Desafios modernos da educação. Petrópolis: Vozes, 1993
É preciso assegurar que a formação de professores possibilite ao profissional docente saber lidar com o processo formativo dos alunos em suas várias dimensões, além da cognitiva, englobando a dimensão afetiva, da educação dos sentidos, da estética, da ética e dos valores emocionais. (2006, p. 69).
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
A vida em sociedade pressupõe a criação e o cumprimento de regras e preceitos capazes de nortear as relações, possibilitar o diálogo, a cooperação e a troca entre membros deste grupo social (sobretudo numa sociedade complexa como a nossa). A escola, por sua vez, também precisa de regras e normas orientadas do seu funcionamento e da convivência entre os diferentes elementos que nela atuam. Nesse sentido, as normas deixam de ser vistas apenas como prescrições castradoras, e passam a ser compreendidas como condição necessária ao convívio social. (1996, p 86).
PASSOS, Laurizete Ferragut. A indisciplina e o cotidiano escolar: novas abordagens, novos significados. In: AQUINO, Julio G. (org.). Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus,1996. p. 117- 127.
“Com relação à docência em geografia, Cavalcanti salienta que há um processo complexo de relação entre o conhecimento acadêmico (os específicos da geografia e os didático-pedagógicos) e os conhecimentos da experiência pessoal dos professores. A articulação entre esses conhecimentos será referência para construção do seu referencial profissional. Ao se deparar com um conteúdo a ser ensinado, o professor dispõe: de uma experiência pessoal com a aprendizagem desse conteúdo; de experiências anteriores de ensino desse conteúdo; de conhecimentos científicos sobre esses conteúdos em sua formação inicial e contínua; de livros didáticos e outros materiais de iniciação de conteúdos; de experiências e materiais didáticos produzidos por colegas; de uma estrutura de funcionamento e de encaminhamentos de formas de trabalho com o conteúdo de ensino na escola em que trabalha. (Cavalcanti, 2006, p 122-123)”. .
CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia escolar na formação e prática docentes: o professor e seu
conhecimento geográfico. In: SILVA, Aida Maria M. et. al. Educação formal e não formal, processos formativos
e saberes pedagógicos: desafios para inclusão social. Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino.
Recife: ENDIPE, 2006. p. 109 – 126.
A geografia é uma ciência que tem como objeto central o estudo do espaço e as relações que se estabelecem na sua formação. A compreensão das dinâmicas existentes nesse espaço, onde o homem por meio das relações de trabalho, apropria-se da natureza e modifica-a, é premissa básica do seu ensino. Tendo em vista esse papel importante da geografia, é fundamental ter claro o que é ser professor de geografia nos dias atuais. Esse profissional deve dominar referências que lhe permitam o desenvolvimento de um pensar autônomo, para que possa organizar seus saberes na produção de conhecimento que mobilizará na sua prática docente. Assim, terá condições de organizar suas propostas de trabalho e de mediar todas as etapas do processo de ensino e aprendizagem em sala de aula.
A educação escolar tem um papel essencial no aperfeiçoamento do ser humano e no desenvolvimento da sociedade. Como um mecanismo que favorece a intervenção no processo de transformação social, pode contribuir para o avanço no processo de inclusão e a minimização dos efeitos da pobreza, da submissão e da opressão. Isso pressupõe que se faça uma opção no pensar e agir no espaço educativo na busca de um projeto político-pedagógico que tenha identidade com as classes menos privilegiadas da sociedade.
P.173 w w w.mercator.ufc.br Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 08, número 16, 2009
CONSTRUÇÃO DOS SABERES DOCENTES
DO PROFESSOR DE GEOGRAFIA
Profa. Msc. Rosa Elisabete Militz Wypyczynski Martins
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS DOI: 10.4215/RM2009.0816.0013
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Só espero que um dia ele também leia SALLINGER
Para sempre guardarei as tuas palavras, velho amigo de muitas horas de pensamento. Digo que por toda a minha vida estarei contigo como se todos os dia fossem "um dia perfeito para os peixes bananas", que aliás já brinquei na praia com o meu amado filho Miguel. Não vou me alongar nesta emoção arrebatadora da tua passagem. Obrigado velho camarada!
p.s; Quem não leu corra que ainda é tempo de ser "o gargalhada" ou estar nas histórias do maior de todos os craques J.D. SALLINGER.
Basta digitar http://www.editoradoautor.com.br e fazer o seu pedido.
Luto
Morre o escritor J.D. Salinger, autor de 'O apanhador no campo de centeio'
Publicada em 28/01/2010 às 16h26m
O Globo
O escritor americano J.D. Salinger me uma de seus poucos registros/ Arquivo - O Globo
RIO - Morreu, aos 91 anos, J.D. Salinger, o legendário autor, herói da juventude e fugitivo da fama cujo livro "O apanhador no campo de centeio" chocou e inspirou um mundo do qual ele gradativamente foi se afastando. A informação sobre a morte na quarta-feira foi divulgada pelos jornais americanos nesta quinta.
Salinger morreu de causas naturais em sua casa, declarou seu filho através de um comunicado divulgado pelo agente literário do escritor. Há várias décadas, ele vivia em um exílio voluntário em uma pequena casa na remota cidade de Cornish, no estado de New Hampshire, nos EUA.
'O apanhador no campo de centeio', de J.D. Salinger, é referência em filmes, músicas e até atos violentos
No Brasil, livro ia se chamar 'Sentinela do abismo'. Leia no Prosa Online
"O apanhador no campo de centeio" com seu imortal protagonista adolescente, o rebelde Holden Caulfield, foi lançado em 1951, época de conformidade com a Guerra Fria e do nascimento da adolescência moderna.
Holden logo se tornou o mais famoso anti-herói da literatura americana. O número da vendas do romance é impressionante - mais de 60 milhões de cópias no mundo todo - e seu impacto é incalculável. Décadas após sua publicação, o livro continua sendo uma expressão determinante do mais americano dos sonhos - nunca crescer.
Salinger escrevia para adultos, mas adolescentes de todos os lugares se identificaram com os temas tratados no romance, como alienação, inocência e fantasia. "Apanhador" apresenta o mundo como uma luta sempre injusta entre a bondade dos jovens e a corrupção dos mais velhos.
Em seguida, diversos livros e filmes, como "Rebelde sem causa", e incontáveis canções de rock ecoaram a mensagem de Salinger. Um dos maiores anti-heróis dos anos 1960, Benjamin Braddock, de "A primeira noite de um homem", não era senão uma versão mais branda do narrador de Salinger.
O culto ao livro tomou um rumo trágico em 1980, quando o perturbado fã dos Beatles Mark David Chapman matou John Lennon, citando a obra de Salinger como inspiração, declarando que "esse extraordinário livro traz muitas respostas".
Já no século 21, o interesse por Holden tornou-se relativamente mais brando, mas o livro de Salinger permaneceu com lugar cativo nos currículos escolares e discutido em várias páginas na internet e em sites de relacionamento, como o Facebook.
Os outros livros de Salinger não se compararam a "Apanhador" em influência ou vendas, mas eles continuam sendo lidos, com grande afetuosidade e intensidade. Entre eles, estão a coletânea "Nove histórias" e o romance "Franny e Zooey".
Ele escreveu ainda os romances "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira" e "Seymour, uma introdução", ambos retratando a neurótica (e ficcional) família Glass, que aparece em boa parte de seu trabalho. Sua última história a ser publicada foi "Hapworth 16, 1928", que saiu na revista "The New Yorker", em 1965.
Em 1997, foi anunciado que "Hapworth" seria replublicada como um livro - gerando uma crítica negativa do "New York Times". O livro acabou não sendo lançado. Em 1999, um vizinho de Salinger de New Hampshire, Jerry Burt, declarou que o autor teria dito a ele, anos antes, que tinha escrito pelo menos 15 livros nunca publicados, que ele guardava em um cofre dentro de casa.
- Adoro escrever e garanto a você que escrevo regularmente - disse Salinger em uma breve entrevista à revista "Advocate", em 1980. - Mas escrevo para mim mesmo, para meu prazer. E quero que me deixem em paz para fazê-lo.
Biografia
O escritor americano J.D. Salinger e exmeplares do seu clássico 'O apanhador no campo de centeio'/ Foto AP
Jerome David Salinger nasceu no dia 1º de janeiro de 1919, na cidade de Nova York. Seu pai foi um rico importador de queijo e carne e a família viveu por muitos anos na famosa Park Avenue.
Assim como Holden, Salinger foi um aluno indiferente com um histórico de problemas em várias escolas. Ele foi mandado para a Academia Militar de Valley Forge aos 15 anos, onde escrevia à noite com uma lanterna sob os lençóis e eventualmente conseguiu seu único diploma. Em 1940, ele publicou sua primeira ficção, "The young folks", na revista "Story".
Salinger serviu ao exército de 1942 e 1946, carregando uma máquina de escrever na maior parte do tempo, escrevendo "sempre que encontrava tempo e uma trincheira desocupada", disse ele a um amigo.
Holden apareceu pela primeira vez como um personagem na história "Last day of the last Furlough", publicada em 1944 na "Saturday Evening Post". Os textos de Salinger foram publicados em diversas revistas, especialmente a "New Yorker", que deu trechos de "Apanhador".
Depois de lançado, o romance tornou-se um best seller rapidamentente, com uma série de críticas exaltando-o. O jornal "The New York Times", por exemplo, afirmou que a obra era "um livro de estreia extraordinariamente brilhante".
Assim, o mundo clamava por Salinger, mas ele deu as costas para a fama. Em 1952, já havia se mudado para Cornish. Três anos depois, casou-se com Claire Douglas, com quem teve dois filhos, Peggy e Matthew, antes de se divorciar em 1967. Salinger também foi casado, por pouco tempo, nos anos 1940, com uma mulher chamada Sylvia, mas pouco se sabe sobre ela.
Exílio
Nos anos que se seguiram, o escritor se recusava a dar entrevistas, instruindo seu agente a barrar correspondências de fãs e passando boa parte de seu tempo escrevendo em casa.
Apesar de Salinger ter considerado uma adaptação de "Apanhador" para o teatro, com o próprio autor no papel de Holden, ele recusou diversas ofertas para transformar o livro em filme, incluindo propostas de nomes como Billy Wilder e Elia Kazan, assim como Steven Spielberg.
Salinger ficou ainda mais célebre por rejeitar a fama. Em 1982, ele processou um homem que teria tentado vender uma entrevista fictícia com o autor para uma revista americana. O impostor aceitou parar a negociação e Salinger desistiu do processo.
Cinco anos depois, outra ação legal de Salinger resultou em uma importante decisão da Suprema Corte Americana. O tribunal não permitiu a publicação de uma biografia não autorizada, escrita por Ian Hamilton, que utilizava cartas nunca publicadas do escritor. Salinger registrou os direitos das cartas quando soube do livro de Hamilton, que foi lançado em uma edição revisada em 1988.
Em 2009, Salinger entrou com um processo para impedir a publicação do livro "60 years later", de John David California, uma sequência não autorizada de "O apanhador no campo de centeio", que imaginava Holden aos 70 anos.
Contra a vontade de Salinger, em 1998, a autora Joyce Maynard publicou seu livro de memórias "At home in the world", em que detalhava seu romance com Salinger, de oito meses de duração, no começo dos anos 1970, quando ela tinha menos da metade da idade do escritor. Ela o descrevia como dono de uma personalidade controladora com excêntricos hábitos alimentares, além de contar detalhes de sua vida sexual problemática.
No ano 2000, uma das filhas do escritor, Margaret Salinger, publicou o livro "Dreamcatcher", em que mostrava o pai como uma pessoa reclusa e desagradável, que bebia a própria urina e falava através de dialetos.
Na época do lançamento, Margaret declarou que havia escrito o livro porque estava "determinada a não repetir com meu filho o que foi feito comigo".
p.s; Quem não leu corra que ainda é tempo de ser "o gargalhada" ou estar nas histórias do maior de todos os craques J.D. SALLINGER.
Basta digitar http://www.editoradoautor.com.br e fazer o seu pedido.
Luto
Morre o escritor J.D. Salinger, autor de 'O apanhador no campo de centeio'
Publicada em 28/01/2010 às 16h26m
O Globo
O escritor americano J.D. Salinger me uma de seus poucos registros/ Arquivo - O Globo
RIO - Morreu, aos 91 anos, J.D. Salinger, o legendário autor, herói da juventude e fugitivo da fama cujo livro "O apanhador no campo de centeio" chocou e inspirou um mundo do qual ele gradativamente foi se afastando. A informação sobre a morte na quarta-feira foi divulgada pelos jornais americanos nesta quinta.
Salinger morreu de causas naturais em sua casa, declarou seu filho através de um comunicado divulgado pelo agente literário do escritor. Há várias décadas, ele vivia em um exílio voluntário em uma pequena casa na remota cidade de Cornish, no estado de New Hampshire, nos EUA.
'O apanhador no campo de centeio', de J.D. Salinger, é referência em filmes, músicas e até atos violentos
No Brasil, livro ia se chamar 'Sentinela do abismo'. Leia no Prosa Online
"O apanhador no campo de centeio" com seu imortal protagonista adolescente, o rebelde Holden Caulfield, foi lançado em 1951, época de conformidade com a Guerra Fria e do nascimento da adolescência moderna.
Holden logo se tornou o mais famoso anti-herói da literatura americana. O número da vendas do romance é impressionante - mais de 60 milhões de cópias no mundo todo - e seu impacto é incalculável. Décadas após sua publicação, o livro continua sendo uma expressão determinante do mais americano dos sonhos - nunca crescer.
Salinger escrevia para adultos, mas adolescentes de todos os lugares se identificaram com os temas tratados no romance, como alienação, inocência e fantasia. "Apanhador" apresenta o mundo como uma luta sempre injusta entre a bondade dos jovens e a corrupção dos mais velhos.
Em seguida, diversos livros e filmes, como "Rebelde sem causa", e incontáveis canções de rock ecoaram a mensagem de Salinger. Um dos maiores anti-heróis dos anos 1960, Benjamin Braddock, de "A primeira noite de um homem", não era senão uma versão mais branda do narrador de Salinger.
O culto ao livro tomou um rumo trágico em 1980, quando o perturbado fã dos Beatles Mark David Chapman matou John Lennon, citando a obra de Salinger como inspiração, declarando que "esse extraordinário livro traz muitas respostas".
Já no século 21, o interesse por Holden tornou-se relativamente mais brando, mas o livro de Salinger permaneceu com lugar cativo nos currículos escolares e discutido em várias páginas na internet e em sites de relacionamento, como o Facebook.
Os outros livros de Salinger não se compararam a "Apanhador" em influência ou vendas, mas eles continuam sendo lidos, com grande afetuosidade e intensidade. Entre eles, estão a coletânea "Nove histórias" e o romance "Franny e Zooey".
Ele escreveu ainda os romances "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira" e "Seymour, uma introdução", ambos retratando a neurótica (e ficcional) família Glass, que aparece em boa parte de seu trabalho. Sua última história a ser publicada foi "Hapworth 16, 1928", que saiu na revista "The New Yorker", em 1965.
Em 1997, foi anunciado que "Hapworth" seria replublicada como um livro - gerando uma crítica negativa do "New York Times". O livro acabou não sendo lançado. Em 1999, um vizinho de Salinger de New Hampshire, Jerry Burt, declarou que o autor teria dito a ele, anos antes, que tinha escrito pelo menos 15 livros nunca publicados, que ele guardava em um cofre dentro de casa.
- Adoro escrever e garanto a você que escrevo regularmente - disse Salinger em uma breve entrevista à revista "Advocate", em 1980. - Mas escrevo para mim mesmo, para meu prazer. E quero que me deixem em paz para fazê-lo.
Biografia
O escritor americano J.D. Salinger e exmeplares do seu clássico 'O apanhador no campo de centeio'/ Foto AP
Jerome David Salinger nasceu no dia 1º de janeiro de 1919, na cidade de Nova York. Seu pai foi um rico importador de queijo e carne e a família viveu por muitos anos na famosa Park Avenue.
Assim como Holden, Salinger foi um aluno indiferente com um histórico de problemas em várias escolas. Ele foi mandado para a Academia Militar de Valley Forge aos 15 anos, onde escrevia à noite com uma lanterna sob os lençóis e eventualmente conseguiu seu único diploma. Em 1940, ele publicou sua primeira ficção, "The young folks", na revista "Story".
Salinger serviu ao exército de 1942 e 1946, carregando uma máquina de escrever na maior parte do tempo, escrevendo "sempre que encontrava tempo e uma trincheira desocupada", disse ele a um amigo.
Holden apareceu pela primeira vez como um personagem na história "Last day of the last Furlough", publicada em 1944 na "Saturday Evening Post". Os textos de Salinger foram publicados em diversas revistas, especialmente a "New Yorker", que deu trechos de "Apanhador".
Depois de lançado, o romance tornou-se um best seller rapidamentente, com uma série de críticas exaltando-o. O jornal "The New York Times", por exemplo, afirmou que a obra era "um livro de estreia extraordinariamente brilhante".
Assim, o mundo clamava por Salinger, mas ele deu as costas para a fama. Em 1952, já havia se mudado para Cornish. Três anos depois, casou-se com Claire Douglas, com quem teve dois filhos, Peggy e Matthew, antes de se divorciar em 1967. Salinger também foi casado, por pouco tempo, nos anos 1940, com uma mulher chamada Sylvia, mas pouco se sabe sobre ela.
Exílio
Nos anos que se seguiram, o escritor se recusava a dar entrevistas, instruindo seu agente a barrar correspondências de fãs e passando boa parte de seu tempo escrevendo em casa.
Apesar de Salinger ter considerado uma adaptação de "Apanhador" para o teatro, com o próprio autor no papel de Holden, ele recusou diversas ofertas para transformar o livro em filme, incluindo propostas de nomes como Billy Wilder e Elia Kazan, assim como Steven Spielberg.
Salinger ficou ainda mais célebre por rejeitar a fama. Em 1982, ele processou um homem que teria tentado vender uma entrevista fictícia com o autor para uma revista americana. O impostor aceitou parar a negociação e Salinger desistiu do processo.
Cinco anos depois, outra ação legal de Salinger resultou em uma importante decisão da Suprema Corte Americana. O tribunal não permitiu a publicação de uma biografia não autorizada, escrita por Ian Hamilton, que utilizava cartas nunca publicadas do escritor. Salinger registrou os direitos das cartas quando soube do livro de Hamilton, que foi lançado em uma edição revisada em 1988.
Em 2009, Salinger entrou com um processo para impedir a publicação do livro "60 years later", de John David California, uma sequência não autorizada de "O apanhador no campo de centeio", que imaginava Holden aos 70 anos.
Contra a vontade de Salinger, em 1998, a autora Joyce Maynard publicou seu livro de memórias "At home in the world", em que detalhava seu romance com Salinger, de oito meses de duração, no começo dos anos 1970, quando ela tinha menos da metade da idade do escritor. Ela o descrevia como dono de uma personalidade controladora com excêntricos hábitos alimentares, além de contar detalhes de sua vida sexual problemática.
No ano 2000, uma das filhas do escritor, Margaret Salinger, publicou o livro "Dreamcatcher", em que mostrava o pai como uma pessoa reclusa e desagradável, que bebia a própria urina e falava através de dialetos.
Na época do lançamento, Margaret declarou que havia escrito o livro porque estava "determinada a não repetir com meu filho o que foi feito comigo".
Assinar:
Postagens (Atom)
